Macaé respira dinamismo. Impulsionada pelo principal fator econômico da cidade, o setor de óleo e gás, a cidade se movimenta com a chegada constante de inúmeras famílias, mas, para além da cadeia de desenvolvimento da cidade, há o contexto social e humano que impacta diretamente quem é mãe. Longe de suas famílias de origem, muitas mulheres têm descoberto acolhimento e apoio a partir do convívio com outras mulheres que, assim como elas, passam pelas delícias e dores da maternidade.
Entre trabalho, escola, consultas médicas, atividades extracurriculares e imprevistos, como um filho ficar doente, a rotina de uma mãe pode ser exaustiva, principalmente quando se está distante da família, fator que, segundo a psicanalista e orientadora parental Raquel Peterson, pode gerar impactos emocionais significativos.
“Quando a mulher chega a uma nova cidade, ela passa por mudanças culturais, sociais e emocionais. Se a maternidade acontece nesse contexto e sem a rede de apoio familiar, esse impacto se intensifica”, explica, acrescentando: “Sem esse suporte, muitas mulheres enfrentam maior sobrecarga física e mental. Isso pode levar à exaustão parental e até aumentar o risco de depressão pós-parto”, afirma.
No dia a dia, essa sobrecarga costuma se manifestar de forma silenciosa. A mãe se torna a principal responsável por gerenciar toda a rotina da casa: consultas médicas, vacinas, alimentação, escola e atividades das crianças. “Existe uma carga mental invisível. Muitas mães dizem: ‘Se eu não lembrar, ninguém lembra’. É uma sensação constante de estar de plantão”, detalha a especialista.
Quando não há uma rede familiar por perto, conciliar carreira e maternidade também se torna mais complexo. “O maior desafio surge quando a criança adoece. Muitas vezes, é a mãe quem precisa se ausentar do trabalho para cuidar do filho. Isso acaba impactando diretamente sua trajetória profissional”, observa Raquel.
Foi justamente diante desse cenário que muitas mães em Macaé passaram a construir suas próprias redes de apoio.
Mariana Müller: a maternidade pensada como uma “aldeia”
A jornalista e escritora de literatura infantil, Mariana Müller, é uma delas. Mãe de Antonia, 11 anos, ela conta que a rede de apoio começou a se formar de maneira natural, a partir da convivência com outras mães. “Eu não sou de Macaé e não tinha familiares próximos. Então, fiz um movimento muito consciente de criar uma espécie de aldeia para criar minha filha”, relata.
A ideia de maternidade coletiva já fazia parte da sua visão desde o nascimento da filha. Em 2014, quando Antonia ainda era bebê, Mariana criou um grupo chamado “Mães da Pracinha”, inicialmente no Rio de Janeiro. O grupo começou com cinco mães e chegou a reunir cerca de 200 participantes, que compartilhavam experiências, organizavam encontros e trocavam apoio no cuidado com os filhos.
Em Macaé, a iniciativa ganhou uma nova versão. Hoje, o grupo reúne 36 mães e até uma avó. Além das conversas e trocas virtuais, a rede funciona também na prática: caronas para atividades, apoio em emergências e acolhimento emocional.
“Já aconteceu de uma mãe me ligar do hospital porque tinha se machucado e não tinha com quem deixar os filhos. Eu fui buscá-los e cuidei deles em casa até o pai chegar. É esse tipo de apoio que faz toda a diferença”, lembra.
Para Mariana, mais do que ajudar na logística da rotina, essas redes reduzem a sensação de solidão da maternidade. “A gente acaba fazendo uma espécie de terapia coletiva. Uma mãe compartilha uma dificuldade e a outra percebe que também passa por aquilo. Isso tira um pouco da culpa que muitas carregam”, pontua.

Izabela Rosa Gonçalves: quando as amizades viram família na cidade
A empresária Izabela Rosa Gonçalves conhece bem o sentimento de solidão que pode surgir quando se vive a maternidade longe da família. Ela chegou a Macaé pouco antes de descobrir a gravidez da filha, Maria Clara, hoje com 10 anos. Nos primeiros anos, o isolamento foi intenso. “Eu me via muito dentro de casa com o bebê e com poucos vínculos na cidade. Isso acaba pesando emocionalmente”, lembra.
Foi somente com o tempo que amizades mais profundas começaram a se formar. Aos poucos, um grupo de mães de colegas da creche da filha se aproximou e os encontros se tornaram frequentes.
Hoje, essas amizades funcionam como uma verdadeira rede de apoio. “Se eu preciso trabalhar até mais tarde, minha filha dorme na casa de uma amiga. Em outros momentos, eu faço o mesmo por elas. Virou uma espécie de família que construímos aqui”.
Para Izabela, essa rede foi fundamental para criar um sentimento de pertencimento na cidade. “O ser humano não foi feito para viver isolado. Compartilhar a vida com outras pessoas faz toda a diferença”, destaca ela, contando que o grupo mantém uma rotina de encontros para fortalecer os laços e relaxar. “Nos encontramos semanalmente, normalmente em algum lugar ou combinamos na casa de alguém. Conversamos, rimos, bebemos alguma coisa e espairecemos…renovamos as energias”, revela.

Lorena Guimarães e a rede de apoio nascida da amizade
A acupunturista Lorena Guimarães também vive essa realidade. Mãe de Heitor, de 8 anos, e Vicente, de 6 anos, ela explica que a rede de apoio que mantém com amigas surgiu de forma espontânea entre ela e mais quatro amigas.
“Não temos um grupo formal. Somos mães e amigas que, sempre que possível, damos suporte umas às outras”, conta.
Mesmo tendo familiares na cidade, a rotina corrida dificulta o apoio constante deles. Por isso, o suporte entre amigas acaba sendo essencial. “Somos profissionais liberais e cada uma tem sua própria rotina, mas quando surge uma necessidade, a gente se organiza. Às vezes, as crianças passam o dia juntas ou dormem na casa umas das outras”.
Para os filhos, essa convivência também é positiva. “Eles adoram. Receber os amigos em casa ou dormir na casa deles é sempre uma novidade. Como somos muito próximas, existe muita confiança entre nós”, pontua.
A experiência profunda de convívio, maternidade e amizade faz com que Lorena resuma bem a vivência compartilhada. “Quando mulheres se apoiam de verdade, mães e filhos crescem juntos”, revela.

carreira e maternidade se torna mais complexo. (Arquivo)
Como começar a construir uma rede de apoio
Para mães que chegam à cidade e ainda não têm vínculos sociais, Raquel Peterson, que também é terapeuta familiar, psicanalista e mãe de três meninas, destaca que algumas atitudes simples podem ajudar.
Uma das principais é ter coragem de dar o primeiro passo. Apresentar-se nos grupos de responsáveis da escola, compartilhar que chegou recentemente à cidade e propor encontros simples, como uma tarde na pracinha para as crianças brincarem, pode ser um início importante.
A especialista também ressalta que construir uma rede não significa aceitar qualquer relação. Com o tempo, é importante estabelecer limites saudáveis, respeitar diferenças culturais e observar com quem existe mais afinidade.
Outro caminho é usar a própria escola como mediadora de vínculos. Instituições escolares costumam aproximar famílias e facilitar encontros entre as crianças, o que naturalmente abre espaço para relações entre os pais.
Raquel também recomenda que os pais observem as amizades que os filhos criam. “Aproximar-se das famílias dessas crianças pode fortalecer os laços entre adultos e ampliar a rede de convivência”.
Por fim, ela lembra que evitar julgamentos precipitados é fundamental nesse processo. “Nem todas as famílias têm o mesmo estilo de vida. A convivência vai mostrando, naturalmente onde existe mais afinidade, e isso faz parte da construção das relações”, conclui.