Se tudo der certo, eu também vou ficar velha

Envelhecer te assusta? Como é para você encarar o espelho e se deparar com as marcas da passagem do tempo?
Há pouco mais de um ano viajei a Ouro Preto com minha melhor amiga. Somos amigas há mais de 30 anos. Estávamos nós duas, um adolescente e duas meninas de uns 10/11 anos. No sobe e desce das ladeiras escorregadias da cidade, num breve momento, uma das meninas, suspira, encantada com a beleza daquele cenário. “Velho é diferente de antigo, né tia? O velho é alguma coisa que não serve mais, que pode ser descartado, mas o antigo não. O antigo tem uma história, tem valor. Nada aqui é velho!” Essa reflexão ficou ressoando e as palavras velho e antigo, indo e vindo no desce e sobe da ladeira da vida.
Será que não está aí uma pequena pista do enigma de por que é tão difícil envelhecer?
A velhice é um tempo que nos coloca mais próximos da finitude. Uma experiência dura e profunda. A contagem dos anos vai sendo marcada por perdas, dores e lutos a serem atravessados. Além disso,a cultura da juventude eterna nos diz, insistentemente, que envelhecer é perder valor, que ficar velho é ser descartado e não servir mais. O imaginário do declínio e da inutilidade vai tentando dar as cartas e paralisar os músculos do tempo.
Mas o tempo segue seu curso e, na melhor das hipóteses, se tudo der certo,eu também vou ficar velha. Eu e você. Cheias de idade, de histórias, de valor. Velhas, antigas e inventando uma nova e bela velhice.
A verdade é que já estamos vendo acontecer uma nova velhice.
A pesquisadora Miriam Goldenberg, em seu livro “A invenção de uma bela velhice”, já anuncia que essa “é uma geração que não aceita rótulos e etiquetas e que está inventando uma nova forma de envelhecer, assim como inventou uma nova forma de ser jovem no século passado. Ela é protagonista de uma verdadeira revolução comportamental e simbólica dos mais velhos, talvez a mais importante do século XXI.” Os 60 são os novos 60.
O maior desejo é que esse envelhecer, apesar das angústias, venha com lucidez, acompanhado das velhas amizades, recheado de histórias, memórias, lembranças…
A coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer, como canta Arnaldo Antunes. O último censo mostrou que hoje, no Brasil, são mais de 38 milhões de pessoas 60+. A expectativa é que em 2030 tenhamos mais pessoas 60+ no Brasil que crianças de 0 a 14 anos. Conquistamos a velhice. Precisamos falar sobre a velhice e, principalmente, escutar o envelhecimento.
Mas envelhecer não é fácil. E não vamos entrar aqui em questões econômicas e sociais que acirram as desigualdades nesse processo. Vamos ficar com o que há de comum. Envelhecer traz dificuldades e desafios. Limitações e renúncias. Dores, sofrimento e solidão. Mas é também um privilégio. Há surpresas, alegrias e muita beleza pelo caminho. Não envelhece quem quer. Envelhece quem vive. “Viver é envelhecer, nada mais”, escreve Simone de Beauvoir.
Envelhece quem anda de mãos dadas com o tempo. Quem faz dele seu aliado e companheiro. Quem ganha de presente o passar dos anos.  Quem aprende subverter a lógica e fazer das perdas, pontes de travessia. Para nós, mulheres, a contagem das décadas carrega um peso ainda maior. Vem traspassada pelos padrões sociais, pela juventude perdida e o silenciamento imposto pelos tabus.
Quando fazemos as pazes com o tempo, entendemos que não há prazo de validade e que trazemos no corpo a cartografia da nossa história. Que para além do declínio do corpo, encontramos a liberdade das amarras da juventude.  As rugas, cicatrizes do tempo, são mapas não só das perdas e lágrimas, mas das conquistas, sorrisos e coragens.
Atravessar a rua da vida ensina que tropeço também é passo, que descanso também é produção, que silêncio também é palavra. Que há beleza na maturidade, há força nos recomeços, há sabedoria na experiência, há sonhos que nunca envelhecem. Aprendemos, com o passar dos anos a nos despir das certezas, a deixar cair por terra as ilusões e a nos fascinar e encantar mais com a experiência. Nos descobrimos mais interessados no caminho, em apreciar a paisagem, sem pressa de chegar a um lugar que nem se sabe bem qual é.
Envelhecer é se dar conta de que a vida acontece no intervalo, no miudinho dos dias, nos detalhes desimportantes. Vamos descobrindo que a felicidade, de fato, está nas horinhas de descuido, nas banalidades do cotidiano. “Uma felicidade minimalista, simples e crua. Um quase nada que é tudo”, como escreve Rosa Montero em seu livro “A ridícula ideia de nunca mais te ver”.
O maior desejo é que esse envelhecer, apesar das angústias, venha com lucidez, acompanhado das velhas amizades, recheado de histórias, memórias, lembranças, com o acolhimento dos amores e o aconchego da família. Que seja intenso, interessante e engraçado. E com escuta. Que a velhice seja escutada, nas suas angústias e desejos, paraque, aos 90 estejamos como Fernanda, Adélia, Laura, Lúcia… em plena atividade, com brilho no olhar e vivendo uma bela velhice.
E como diz a frase que uma amiga de infância, no seu projeto lindo @somos.avo, estampou numa camiseta, “velho é o jovem que deu certo”. E quando a velhice chegar, que ela me encontre sambando!!!!
E você, como você quer que a velhice te encontre????
GLAÚCIA PINHEIRO
Psicanalista e Doutorada em Psicologia.
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E-mail: galpinheiros03@gmail.com
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