Macaé recebe muita gente de outras cidades, estados e até países, mas, e os macaenses que estão mundo afora para trabalhar? Seja por escolha própria ou transferência da empresas, os expatriados —indivíduos que residem em um país diferente do seu por motivos profissionais —, vivem uma experiência única, o conhecimento de uma nova língua e cultura, combinados muitas vezes com a saudade de casa.
Paulo Barros e Joelma Celestrini nos EUA
O casal Paulo Barros e Joelma Celestrini viveu em Macaé por 12 anos, mas, em 2018, Paulo, oceanógrafo que atua no setor de óleo e gás, foi transferido para Houston pela empresa. Joelma, jornalista e chef de cozinha, conta que nos primeiros dois anos ela decidiu não trabalhar e se dedicar exclusivamente à adaptação da família no novo país. Eles se mudaram com os dois filhos, Francisco e Nina, ele na época com 10 anos e a menina com 6 meses. “A adaptação das crianças foi bem natural, tranquila e rápida, hoje, eles já estão inseridos na cultura daqui porque vieram muito novos e gostam muito de morar aqui”, conta Joelma, acrescentando que ela e o marido estimulam os filhos a falar português e manter viva também a cultura brasileira.
Contudo, para o casal e os dois filhos, Macaé segue sendo especial. “Eles adoram ir pra Macaé, gostam da praia, do estilo de vida, o tempo da vida que acontece com menos pressa e com mais tranquilidade. A gente acredita que, em termos de qualidade de vida, talvez foi o lugar onde nós encontramos o melhor combo, porque nós tínhamos a família perto, a praia e, além disso, Macaé é uma cidade que apesar de ser no interior, oferece muitas facilidades”, explica.
Em Houston, Joelma decidiu voltar a ser chef de cozinha, mas logo veio a pandemia e ela teve que parar novamente. “Depois que passou a pandemia, eu retomei com o meu negócio de personal chef. Inicialmente, eu atendia um público quase 100% brasileiro, hoje eu já tenho um público metade brasileiro, metade americano ou de outras nacionalidades”.

Ela conta que começou com eventos privados de brasileiros, que tinha americanos como convidados e, dessa forma, seu trabalho foi sendo reconhecido por esse público. “Hoje em dia, eu faço eventos onde não há brasileiros, faço eventos com público misto, só com brasileiro ou só com americanos. Essa exposição inicial através da comunidade brasileira me ajudou muito a entrar no mercado americano, acho que o grande diferencial foi de um serviço bem completo, uma comida especial, preparada com mais critério, que não faz parte da cultura do americano, mas ela é realmente enxergada como algo especial”, explica Joelma.
Livia Mackie no México
E, assim como um bom trabalho alcança novos públicos, também mantém os antigos. Como no caso da publicitária e dona da agência BrainStorm, Livia Mackie, que atualmente mora no México, mas mantém seus clientes em qualquer lugar que vá.
“A BrainStorm começou em 2013, como uma loja de souvenir sofisticado de Macaé, eu produzi, fiz o design de todos os produtos da loja. Além de ter a loja, eu ainda tinha um escritório de design gráfico que atendia empresas corporativas. Depois de um ano, meu marido foi transferido para a Escócia. Então, a gente sai de Macaé, eu fecho a loja e vou para a Escócia, mas continuo atendendo quem precisava de serviço de design gráfico”, recorda a publicitária.

Em 2017, Lívia volta para Macaé, com a Brainstorm consolidada como uma agência de design gráfico e que logo virou referência na criação de logos e branding sofisticados. O que ela não esperava era que, após 7 anos em Macaé, seu marido teria uma proposta de trabalho no México.
“Eu tinha um cliente aqui no México, a minha agência fazia um trabalho para ele, portanto, quando meu marido recebeu a proposta, eu vi oportunidade para expandir no México, porque a agência em Macaé já estava muito bem estabelecida. Então, essa transição foi muito fácil, porque com a pandemia, todo mundo aprendeu a fazer reuniões online, a trabalhar remotamente, a não precisar de reuniões presenciais.” Atualmente, a equipe de Macaé trabalha em home office e Lívia coordena tudo de forma remota.
Mas o trabalho em um país diferente também tem seus desafios como, por exemplo, o fuso horário. “Aqui no México, estou três horas atrás. Nos primeiros meses, eu tentei seguir com o horário da minha equipe de Macaé. Para eles o expediente começava às 9h da manhã e aqui pra mim às 6h da manhã, para eles terminava às 17h e aqui ainda era 14h. Então, até eu conseguir me adaptar foi uma loucura. Hoje, consegui criar uma rotina de horário comercial aqui também, e acaba que na BrainStorm temos um super atendimento, pois quando acaba o expediente no Brasil eu continuo aqui do México e, dessa forma, temos um atendimento super ágil’’. A publicitária vem a Macaé a cada 3 ou 4 meses, cumprindo agendas de reuniões e trabalhos com seus clientes.

O México trouxe surpresas, Lívia encontrou um grupo de brasileiras que também moram na Vila Hermosa. Hoje, ela possui uma funcionária no país, que a auxilia com traduções e faz prospecção no país da empresa. “Eu tenho um cliente arquiteto aqui no país, já fechamos também com uma brasileira que mora no México, mas vai abrir uma clínica de estética em Portugal, então, hoje, literalmente, a BrainStorm é sem fronteiras’’, completa Lívia.
Erica Cuzatti na Itália
A mudança de país também pode ser uma decisão que vai além do trabalho. Erica Cuzatti, com dupla cidadania, buscava um lugar para recomeçar e escolheu a Itália. “A Itália não foi minha primeira opção, o idioma era um desafio, mas quando aprofundei o entendimento sobre o que significa ser uma cidadã italiana de fato, percebi que nenhum outro lugar me ofereceria o mesmo nível de legalidade, acesso a serviços, história e pertencimento cultural. Decidi, então, viver a cidadania italiana, não apenas ter um outro passaporte no bolso. Reuni toda a documentação necessária, enfrentei mudanças na legislação ainda em 2016 e 2017, busquei minhas raízes e vim para a Itália com meu filho, em janeiro de 2018, para Brescia, na Lombardia. Foi uma decisão que transformou a minha vida e a dele”.

Ela conta que logo que chegaram foram amparados. “Eu tive o privilégio de ter o apoio da congregação das Testemunhas de Jeová em Brescia, com brasileiros e italianos que falam português. Esse acolhimento foi essencial. A maior dificuldade para quem chega, além do idioma e da cultura, é conseguir alugar um imóvel. Mas fomos amparados: encontramos casa, trabalho, carro e até apoio no primeiro dia de aula do meu filho. Em três meses, meu filho já falava fluentemente italiano; em seis meses, eu já trabalhava e conduzia nossa vida com autonomia. Em janeiro de 2026, completaremos oito anos de Itália, uma jornada intensa e muito feliz”.
Em 2022, no período pós-pandemia, Erica percebeu que a demanda por serviços de cidadania cresceu intensamente, foi então que começou a atender famílias do mundo todo, inclusive de Macaé. “Quando a legislação mudou abruptamente em março de 2025, impactando processos em andamento, ajustei meu trabalho e sigo acompanhando os casos já depositados em 2024. Espero que, em 2026, o cenário esteja totalmente definido”, explica.
E, dessa forma, uma nova mudança começava na sua vida. “Com uma Itália cada vez mais apaixonante no meu dia a dia, mergulhei na área de turismo de experiências e concierge cultural. Em 31 de outubro de 2025, me habilitei oficialmente como profissional de turismo na Itália. Formalizei minha atuação como Concierge que, pra mim, significa acolher cada viajante como convidado, não como turista. Construir experiências sob medida que unem cultura, história, estilo de vida italiano e, especialmente, o que a Itália tem de mais autêntico: sua hospitalidade e sua tradição enogastronômica”, conta orgulhosa.

Contudo, Macaé ainda tem o seu lugar especial para Erica, que visita a cidade uma vez ao ano. “O que mais sinto falta é do abraço da família, do cheiro do mar e da simplicidade afetiva que só Macaé tem. Mas também fico feliz em levar um pedacinho da cidade comigo para a Itália e em representar, de alguma forma, a força e o talento dos macaenses no mundo. Acredito que mudar de país é mais do que cruzar fronteiras, é atravessar versões de nós mesmos. Se hoje ajudo outras pessoas a viverem essa transformação, é porque vivi na pele cada desafio, cada conquista e cada emoção. E a minha maior alegria é saber que, mesmo vivendo na Itália, meu coração continua tendo sotaque de Macaé”, finaliza Erica.