“Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. Essa é a frase que abre o romance de L. Tolstói, Anna Karenina. Não é por acaso que o ideal de família feliz virou sinônimo da estampa das propagandas de margarina. As famílias, com suas mais diversas singularidades e histórias, estão presentes nos livros, filmes, novelas, mitos e até nos contos de fadas. E nos divãs. Afinal, como canta Arnaldo Antunes, todo mundo teve mãe… todo mundo teve pai… (ao menos para ser gerado. E essa primeira coletividade, esse lugar que demarca nossa origem e nosso pertencimento, no qual chegamos já marcados por uma história, uma ancestralidade e um referencial, se mostram bem mais por seus infortúnios e por sua infelicidade ordinária que pela felicidade extraordinária imposta por um ideal.
Para falarmos de família, de partida precisamos colocar uma questão: qual a sua referência de família? Ou como você define o que é uma família? Assim, também de partida, não podemos falar de Família, com F maiúsculo, como um modelo único e pré-definido. Podemos falar de famílias, com seus vários modelos e arranjos, com suas tramas e festejos, com suas variadas estruturas e suas diferentes histórias. Famílias são plurais.
Porém, uma definição de família é sempre datada. A forma como ela se constitui e como a representamos socialmente está marcada pela época, pelo contexto cultural, político, geográfico e histórico. Quando abrimos o dicionário de sinônimos Houaiss e buscamos o verbete FAMÍLIA, imediatamente nos deparamos com essa definição enxuta e tradicional. A família, seria então, um grupo de pessoas que vivem juntas, formado especialmente por pai, mãe e filhos, ligadas entre si pelo casamento ou por qualquer vínculo de parentesco. O matrimônio, os laços consanguíneos e as relações de parentesco definem assim, ao menos teoricamente, os vínculos familiares.
Essa definição dicionaresca demarca o modelo de família do início do século XX. Um modelo ideal, datado e estabelecido pelas regras e padrões de uma sociedade burguesa e conservadora, com lugares sociais hierarquizados e bem definidos, marcados pela monogamia, pelo patriarcado e pela heteronormatividade.
Mas as configurações familiares não são estáticas. Muito menos imutáveis. E o último censo do IBGE (2022) demonstra essa mobilidade e um tempo histórico de muitas transformações. Mulheres são responsáveis por chefiar quase metade (49,1%) dos lares brasileiros. Muitas dessas famílias, não só chefiadas, mas mantidas exclusivamente por mães solo, no sustento, educação e cuidado dos filhos. Se todo mundo teve pai, para ser gerado, é uma realidade acachapante que 13,5% não têm pai na sua criação, educação e nem mesmo no nome.
Hoje, menos da metade das famílias (42%) são formadas por casais com filhos, o casamento não é mais a pedra angular da “família tradicional brasileira” e as uniões homoafetivas cresceram 8x mais nos últimos 12 anos. E a família já não mais almoça junto todo dia, já faz tempo, perdeu essa mania. As famílias se descentralizaram dos núcleos rígidos da modernidade e criaram tentáculos que se estendem, expandem e agregam nesses novos tempos.
Afinal, o que é família?
Seria aquilo que herdamos, por laços de sangue, parentesco, por linhagem; ou aquilo que compartilhamos, construímos, por afinidades, alianças e laços de afeto?
Famílias são esse emaranhado de nós. São feitas de gente, que sente, chora, vibra, se inquieta, se doa. Onde afetos se entrelaçam, se embolam, se separam. Famílias são diversas, distintas, dinâmicas. Sejam elas grandes ou pequenas, nucleares ou tentaculares, feitas de sangue ou de olhares que se reconhecem nas encruzilhadas da vida, famílias são complexas e ambivalentes. São nossa primeira coletividade, onde aprendemos a amar e desamar, a cuidar e rivalizar, a lidar com proximidades e distâncias, com conflitos e diferenças. Deixam marcas, heranças simbólicas, transmitem traços, gostos, gestos. São ponto de partida para construirmos nossa história.São dessas primeiras relações que recolhemos os elementos para escrevermos nosso romance familiar, que tecemos nossa trama edípica e construímos nosso mito individual.
Não há um modelo de família que seja o certo e outros errados. Há aquela de onde partimos, que nos serve de referência. Para uns, família é ninho, lugar de refúgio, para outros, gaiola, prisão do desejo.
Uma análise se tece das teias familiares. O que fazemos com o que herdamos é questão norteadora de todo um percurso de análise. Ao revisitarmos nossa história, somos convocados a repensar nossa estrutura familiar. E nunca a apreendemos por completo. Seguimos as pegadas que constituem nosso caminho. E em meio a descobertas e desconhecimentos, surpreendemo-nos, sempre, com esse estranho familiar.
GLAÚCIA PINHEIRO
Psicanalista e Doutorada em Psicologia.
Contatos:
Instagram: @glauciappsicanalise
Cel/ Whats: 22 98151 0432
E-mail: galpinheiros03@gmail.com
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