Daianne Schittino com o filho Miguel. Ela descobriu questões como hipotireoidismo e, posteriormente, trombofilia — condição que exigiu cuidados imediatos já no início de uma nova gestação após mais de um ano e meio de tentativas
Daianne Schittino com o filho Miguel. Ela descobriu questões como hipotireoidismo e, posteriormente, trombofilia — condição que exigiu cuidados imediatos já no início de uma nova gestação após mais de um ano e meio de tentativas. (Foto Alle Tavares)

Entre o tempo e o sonho – A jornada silenciosa das mulheres que lutam para engravidar

Para muitas mulheres, a maternidade não começa com um teste positivo, mas com uma expectativa que, muitas vezes, se alonga mais do que o esperado. Entre tentativas frustradas, diagnósticos inesperados e um turbilhão de emoções, a dificuldade para engravidar revela uma jornada íntima, silenciosa e, frequentemente, solitária.

A ideia de que engravidar é algo simples ainda persiste, mas a realidade é mais complexa. Segundo a ginecologista e obstetra Dra. Jade Bittencourt, especialista em fertilidade, a infertilidade raramente tem uma única causa. “Sempre existe uma história por trás. É uma mulher que adiou a maternidade, que vive sob estresse, com sono ruim, alimentação inflamatória. A infertilidade não começa quando ela decide engravidar, começa muito antes”, explica a médica.

Dra. Jade Bittencourt diz queapós os 35 anos, a fertilidade feminina sofre uma queda importante, especialmente na qualidade dos óvulos
Dra. Jade Bittencourt diz que após os 35 anos, a fertilidade feminina sofre uma queda
importante, especialmente na qualidade dos óvulos. (Foto Alle tavares)

O tempo do corpo e os fatores invisíveis

O impacto da idade é um dos fatores mais relevantes nesse processo. Após os 35 anos, a fertilidade feminina sofre uma queda importante, especialmente na qualidade dos óvulos. “Muitas mulheres chegam com urgência, percebendo que o tempo biológico não acompanhou o tempo social”, pontua a ginecologista.
Além disso, condições como endometriose, miomas e alterações hormonais interferem diretamente no ambiente necessário para a gestação. O estilo de vida também tem papel central. “O organismo reprodutivo responde ao estado geral do corpo. Uma rotina exigente e sedentarismo, por exemplo, geram o aumento de cortisol e resistência insulínica, que desregulam o eixo hormonal, prejudicam a ovulação e impactam a fertilidade”, reforça Dra. Jade.

Entre perdas, recomeços e fé

Foi nesse cenário que o casal Daianne Schittino Felippe e João Victor Evangelista Ramos iniciou sua jornada. Aos 38 anos, ela engravidou logo nas primeiras tentativas, mas enfrentou um aborto retido ainda no início da gestação. A partir daí, começou uma investigação mais aprofundada.
“Ficamos meses tentando e não acontecia. Fizemos tudo certinho, seguindo todas as orientações, mas nada dava certo. Tive vontade de desistir várias vezes”, relembra.

Com acompanhamento especializado da Dra. Jade, descobriu questões como hipotireoidismo e, posteriormente, trombofilia — condição que exigiu cuidados imediatos já no início de uma nova gestação após mais de um ano e meio de tentativas. O tratamento incluiu suplementação e ajustes no organismo.

“Essa nossa mania de querer controlar tudo, até o tempo… Quando eu relaxei e foquei em outras coisas, tudo aconteceu”, conta Daianne. Hoje, eles celebram a vida do filho Miguel, de 1 ano e 10 meses, como a realização de um sonho cuidadosamente construído.

Dra. Nina Dultra, especialista em saúde da mulher, dizque a investigação correta pode mudar completamente a trajetória de quem tenta engravidar
Dra. Nina Dultra, especialista em saúde da mulher, diz que a investigação correta pode mudar completamente
a trajetória de quem tenta engravidar. (Foto Alle Tavares)

Diagnóstico e precisão no caminho da fertilidade

A investigação correta pode mudar completamente a trajetória de quem tenta engravidar. É o que reforça a médica radiologista Dra. Nina Dultra, especialista em saúde da mulher, responsável pela Clínica Nina, que foi pensada para cuidar da mulher em todas as suas fases.

“A fertilidade é uma de nossas fases mais lindas, mas que ao mesmo tempo traz muita angústia. Sendo assim, realizamos os principais exames necessários nesse processo. Exames como a histerossalpingografia são fundamentais para avaliar as trompas e identificar possíveis impedimentos à gestação. Além disso, a ultrassonografia permite acompanhar a ovulação e avaliar a reserva ovariana”, explica Dra. Nina.

Segundo ela, o diagnóstico preciso permite decisões mais assertivas e, em alguns casos, pode até acelerar o processo. “Quando realizado de forma adequada, o exame direciona o tratamento e traz mais clareza para o casal”, destaca.

Priscila Góes Rudge com o filho Isac, de 3 meses. Ela enfrentou meses de tentativas semsucesso. Aos 37 anos, decidiu que era o momento de engravidar, mas após mais de oito meses sem resultado, percebeu que algo precisava muda
Priscila Góes Rudge com o filho Isac, de 3 meses. Ela enfrentou meses de tentativas sem sucesso. Aos 37 anos, decidiu que era o momento de engravidar, mas após mais de oito meses sem resultado, percebeu que algo precisava muda. (Foto Alle Tavares)

Mudanças, fé e um positivo inesperado

A nutricionista Priscila Góes Rudge também enfrentou meses de tentativas sem sucesso. Aos 37 anos, decidiu que era o momento de engravidar, mas após mais de oito meses sem resultado, percebeu que algo precisava mudar.

“Eu não tinha nenhum problema aparente, então foquei no que estava ao meu alcance: alimentação, exercícios, saúde emocional e fé”, conta.

Durante a investigação, realizou exames importantes, incluindo a histerossalpingografia com a Dra Nina. Pouco tempo depois, veio a surpresa: a gravidez aconteceu de forma natural, quando ela menos esperava.

“O mais importante foi entregar nas mãos de Deus e cuidar de mim. Às vezes, a gente precisa tirar o hiperfoco”, reflete. Hoje, ela vive a maternidade ao lado do esposo Estevan Rudge e do filho Isac, de três meses. “Pedimos muito a Deus que nos abençoasse com a nossa família! O Senhor ouviu nossas orações e nos abençoou com o filho da promessa. Deus seja louvado!”

A psicóloga Laryssa Portugal explica que cada tentativa frustrada podegerar um ciclo de desgaste emocional imenso. Ela reforça que o estresse não deve ser encarado como culpa
A psicóloga Laryssa Portugal explica que cada tentativa frustrada pode gerar um ciclo de desgaste emocional imenso. Ela reforça que o estresse não deve ser encarado como culpa. (Foto de arquivo)

O impacto emocional de cada tentativa

Se o corpo sente, a mente também atravessa esse processo intensamente. A psicóloga Laryssa Portugal explica que cada tentativa frustrada pode gerar um ciclo de desgaste emocional imenso.

“No início, existe esperança, expectativas, planos e desejo. Com o tempo, as negativas podem trazer ansiedade, culpa, sensação de inadequação e até isolamento.

Cada teste negativo é vivido como uma pequena perda. A pressão social também pesa. Perguntas aparentemente simples podem se tornar gatilhos e, para isso, a orientação é ter frases prontas e estabelecer limites como forma de proteção emocional”, explica a psicóloga.

Ela reforça que o estresse não deve ser encarado como culpa. “O emocional influencia o corpo, mas ninguém deixa de engravidar por ser ansiosa. O foco deve ser reduzir o sofrimento e buscar um suporte para chegar ao melhor cenário possível para cada caso”.

Manter uma rede de apoio, investir em terapia e preservar a vida além do “projeto bebê” são estratégias fundamentais para atravessar esse período com mais equilíbrio.

A médica Elisa Figueiredo Arantes com a filha Alice. Ela iniciou sua jornada aos 36 anos eenfrentou um longo, doloroso e solitário processo até a realização do sonho de ser mãe, quatro anos depois, através da Fertilização In Vitro
A médica Elisa Figueiredo Arantes com a filha Alice. Ela iniciou sua jornada aos 36 anos e enfrentou um longo, doloroso e solitário processo até a realização do sonho de ser mãe, quatro anos depois, através da Fertilização In Vitro. (Foto Alle Tavares)

Resiliência, limites e o milagre da vida

Em muitos casos, o caminho inclui tratamentos mais complexos, como a fertilização in vitro (FIV). Foi o caso da médica otorrinolaringologista Elisa Figueiredo Arantes, que iniciou sua jornada aos 36 anos e enfrentou um longo, doloroso e solitário processo até a gestação, quatro anos depois.

“Começamos a perceber que, mesmo sem método contraceptivo, a gravidez não acontecia. Percebi que teríamos dificuldades quando os exames vieram normais sendo considerado pelos médicos como uma infertilidade de causa não aparente, provavelmente relacionada à idade materna”, pontua Elisa.

Sem um diagnóstico específico, foi iniciada a investigação e logo veio a orientação para procurar uma clínica de fertilidade no Rio de Janeiro. O tratamento indicado foi a FIV.

“Foram cinco tentativas. A cada uma, a expectativa era enorme e a frustração também. É um processo que mexe com tudo, física e emocionalmente. Acreditem: ninguém está pronto pra tudo isso. Nem nós, como médicos, tínhamos a dimensão de quantos exames e procedimentos teríamos que fazer e o quanto isso impactaria nas nossas vidas”, relata Elisa, casada com o médico Leonam Magalhães. Eles são pais da Alice, de 1 ano e 7 meses.

Ao longo do caminho, Elisa conta que vieram dúvidas, exaustão e até a vontade de desistir. A terapia e o apoio familiar foram essenciais para seguir. A gravidez finalmente aconteceu após um novo ciclo de tratamento, aliado a cuidados com o corpo e a saúde.

“É impossível sair ilesa dessa jornada. Lidar com algo que foge do nosso controle nos ensina sobre limites, fé e aceitação, mas também revela a força da mulher, sua capacidade de transformação e resiliência. A vida é um milagre — e engravidar é algo profundamente sagrado”, finaliza a mãe.

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