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Mulheres Offshore, uma nova fronteira

seg, 23/05/2022 - 14:35 -- Divercidades
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Arquivo Pessoal

Edição 59/2022
Texto Leila Pinho

Como você, que lê esta matéria agora, se sentiria ao perceber que, nos primeiros dias de trabalho, os seus colegas estão te testando? Agora, imagine estar trabalhando a quilômetros de distância da família e dos amigos. Neste local, uma minoria é do mesmo gênero que você e, na maioria das vezes, os superiores diretos, que são do gênero oposto não compreendem as dificuldades laborais que você vive.
Parece um ambiente hostil? É um pouco da realidade que muitas trabalhadoras da indústria de óleo e gás, que embarcam, já viveram ou ainda vivem. Em um ambiente majoritariamente masculino que reflete os danos sociais do machismo estrutural, elas enfrentam muitos desafios para conquistar espaço e condições favoráveis à equidade de gênero.
Uma pesquisa realizada pelo Instituto Ipsos com 60 mulheres que trabalham nessa indústria, e encomendada pela Ocyan, revela que o machismo é o grande ponto de reclamação.

Quebrar paradigmas
A coordenadora de embarcação, Sthéfanne Faes, de 38 anos, está nesse mercado há 16 anos e lembra os desafios que enfrentou no início. Quando ela embarcou pela primeira vez em uma plataforma de perfuração, em 2006, eram pouquíssimas mulheres a bordo. “Era tudo mais robusto nas atividades. Para a mulher chegar trabalhando tinha que quebrar paradigmas, e um deles é a força”, fala Sthéfanne.
A ideia de que as mulheres não conseguem fazer determinados trabalhos que exigem mais força é uma das crenças que atravessa gerações, na sociedade. Assim, é comum as trabalhadoras offshore lidarem com situações onde suas capacidades são questionadas. A pesquisa do Instituto Ipsos mostrou que, em situações desagradáveis, 27% delas perceberam ser tratadas de forma diferente, como por exemplo não receber uma tarefa pesada, por considerarem que elas são incapazes de realizar.
Eu fazia troca de válvula de manutenção direto. Pra mim, isso foi uma superação. Eu não aceitava ajuda de ninguém, fazia questão de fazer sozinha porque eu não queria ser questionada sobre a minha capacidade. Eu consegui e fui ganhado a confiança das pessoas, dos homens e das mulheres”, lembra Sthéfanne.
Para a técnica química Giovana Dias de Santana, de 31 anos, que trabalha embarcada há 6, existe outro paradigma que precisa ser quebrado. “Questionam quando decidimos embarcar, se não queremos ter filhos, marido e construir nossa família. Associam a mulher embarcada à solidão, que não é possível ter tudo isso, sendo do mundo offshore”, relata.

Representatividade e lideranças femininas
No momento em que Giovana concedeu a entrevista à equipe da Divercidades, ela estava embarcada e relatou sobre a diferença entre o número de tripulantes a bordo. “A plataforma onde estou tem 140 pessoas e o máximo que já chegamos aqui, foram 10 mulheres. E, acredite, isso é muito a bordo”, fala.
As entrevistadas para esta matéria notam o avanço no crescimento da presença feminina nas plataformas. A pesquisa do Instituto Ipsos revelou que a melhoria mais reconhecida por elas é o aumento na contratação de mulheres, 72% perceberam isso. Porém, a ascensão para elas ainda é mais difícil. Para 69% delas, os homens têm mais chances de alcançar os cargos de lideranças no setor.
A engenheira Paloma Ferreira Silva, de 40 anos, tem mais de 12 anos de experiência na indústria de óleo e gás. Ela conta um pouco sobre o que viu nesses anos todos, sobre a representatividade feminina. “No meu início, mulheres na engenharia, na operação, quase não tinha. Isso foi aumentando pouco a pouco e aumentou mais depois que eu vim trabalhar na base como gerente. A liderança feminina interfere diretamente na inserção de mais mulheres no setor. Hoje, vejo mais incentivo e iniciativas para a inserção das mulheres. A quantidade de mulheres tem aumentado, ao longo dos anos”, fala.
Outro fator importante na equidade de gênero é garantir que mais mulheres tenham acesso ao crescimento profissional, que possam também ocupar cargos de liderança nas empresas. Sthéfanne, que começou como operadora de lastro, sendo a segunda mulher da empresa onde atua a ocupar essa função, já ocupou cargo de gerente de plataforma e, hoje, está como coordenadora de embarcação, sendo responsável por liderar cerca de 30 pessoas. “Tenho orgulho da minha carreira, mas não consigo deixar de pensar que nós poderíamos ter começado antes. De qualquer forma, tenho a sensação de que tenho uma missão muito importante na empresa”, comenta.

O que precisa mudar, na opinião delas
Está em 1, entre os 17 objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas: igualdade de gênero. Objetivo 5: “Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas”, descreve o documento. Para empresas que estão conectadas com os valores mais importantes da sociedade atual, e olhando para o futuro, é importante implementar ações nesse sentido.
Divulgar e estimular a contratação de mulheres nesse ambiente é fundamental, campanhas inclusivas e oportunidades faltam mais do que a quantidade de profissionais querendo estar nesse meio”, opina Giovana.
Para Sthéfanne, um dos pontos que precisa melhorar é relativo à contratação, com mais transparência e justiça nos critérios e nos processos de seleção e recrutamento. “Quando uma mulher participa de um processo, o fato do gênero influenciar na escolha da contratação não é justo, nem no mercado de óleo e gás, nem no mercado de forma geral”, argumenta.
Para Paloma, o incentivo à educação é fundamental para mudar a realidade. Ela pensa que precisa haver mais estímulo para as mulheres estudarem em áreas que tradicionalmente são mais ocupadas pelos homens, como é o caso da engenharia. “Eu tive oportunidade, mas eu me dediquei, estudei para que quando a oportunidade surgisse, eu estivesse pronta”, fala.
É preciso KPIs (indicadores de desempenho) para incluir a mulher no mercado de trabalho. Não é só mostrar que aumentou o percentual em 30% na empresa. Porque aumentar 30% no RH é uma coisa, que já é um ambiente feminino, aumentar na plataforma é outra”, exemplifica Paloma.

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