O chef Hugo Dias é um estudioso e entusiasta no universo da gastronomia popular e destaca a riqueza da culinária macaense. (Foto Alle Tavares)

O lado B da gastronomia macaense

Muito além dos holofotes e da badalação dos grandes restaurantes, do requinte e do luxo, existe um vasto universo na gastronomia que pulsa com autenticidade e histórias pouco contadas. É o chamado lado B da gastronomia, um conceito onde o foco não está apenas no prato servido, mas na trajetória de quem o prepara, nas peculiaridades do ambiente, nas receitas de família resgatadas e na paixão pela cozinha. É nesse lugar que moram narrativas menos conhecidas, mas profundamente marcantes que resistem fora do circuito comercial tradicional, movidas por vínculos afetivos, identitários e culturais.

Essas cozinhas, longe das grandes redes e das mesas estreladas, revelam o que a gastronomia popular significa para muitas comunidades. São estabelecimentos que resistem e oferecem o verdadeiro sabor da história e da cultura local, preservando sabores, técnicas e memórias que passam de geração para geração.

Marcos Antônio, o Mineiro, começou a servir seu carro-chefe, a feijoada, há 20 anos no Visconde de Araújo e, há 3 anos, mudou-se para o Campo D’Oeste. (Foto Alle Tavares)
Marcos Antônio, o Mineiro, começou a servir seu carro-chefe, a feijoada, há 20 anos no Visconde de Araújo e, há 3 anos, mudou-se para o Campo D’Oeste. (Foto Alle Tavares)

O chef, pesquisador gastronômico e proprietário do Bar do Djalma, Hugo Ramos Dias, é um entusiasta desse universo. Ele traz o olhar atento à comida de rua, presente no dia a dia, que alimenta e, de certa forma, não é valorizada nem registrada. “São restaurantes fundamentais, que fazem a cidade funcionar. É quem fornece a média com pão na chapa de manhã, serve o PF do almoço e alivia a dureza da rotina com uma gelada à noite. É quem segura a barra do povo”, afirma Hugo.

Segundo ele, a gastronomia macaense é muito diversa, mas com um traço em comum: a identidade. São bares e restaurantes que carregam marcas da história local. “Não são o que chamo de ‘enlatados’, estabelecimentos iguais em qualquer cidade, com o padrão da moda, do hype. O lado B é real no tempero, no acolhimento, são únicos. Temos referências incríveis aqui em Macaé como o Cantinho da Bahia, no Lagomar; a comida mineira do Paiol de Minas, na Aroeira; os frutos do mar do Docas, no Visconde; a feijoada do Bar do Mineiro, na Praia Campista; e o tradicional Angu Macaense, entre outros. É essa galera que existe e resiste longe dos holofotes e grandes incentivos”, enfatiza o pesquisador.

Comida mineira e de boteco

O médico Gustavo Pinheiro frequenta o Restaurante do Mineiro há três anos e adora a energia e a culinária do local, principalmente quando tem roda de samba. (Foto Alle Tavares)
O médico Gustavo Pinheiro frequenta o Restaurante do Mineiro há três anos e adora a energia e a culinária do local, principalmente quando tem roda de samba. (Foto Alle Tavares)

Entre esses personagens que mantêm viva a chama da gastronomia local, está Marco Antônio, o Mineiro, que, com sua esposa Rosângela Ferreira, serve uma das feijoadas mais gostosas da cidade há 20 anos. “A feijoada servida às sextas e sábados é nosso carro-chefe e traz muitos clientes, vários conquistados pelo boca a boca. Durante a semana, temos um cardápio variado, com até cinco pratos por dia. A gastronomia popular ganhou visibilidade, as pessoas notam e isso representa uma mudança. Existem oportunidades para todos, mas escolhemos onde queremos estar, e optamos por proporcionar essa experiência num cantinho especial, aqui no Campo D’Oeste”, conta Marco.

Entre os frequentadores, o médico Gustavo Pinheiro Filho conheceu o Restaurante do Mineiro há três anos e virou fã. “O melhor dia é quando tem roda de samba, para reunir os amigos e relaxar. O lugar é agradável e animado. Sou fã das entradinhas e caldos, especialmente, a moela e o caldinho de feijão. A gastronomia do eixo mais badalado evoluiu e atingiu os níveis dos grandes centros, mas não podemos esquecer da praticada fora desse contexto, que deve ser valorizada pelas peculiaridades que enriquecem a cultura e a gastronomia da cidade”, diz Gustavo.

O Lagostão é gerenciado por Eliane Marquiote e seu filho Raphael. O restaurante, especializado em frutos do mar, foi fundado há 27 anos pelo saudoso Kássio, que era pescador. (Foto Alle Tavares)
O Lagostão é gerenciado por Eliane Marquiote e seu filho Raphael. O restaurante, especializado em frutos do mar, foi fundado há 27 anos pelo saudoso Kássio, que era pescador. (Foto Alle Tavares)

Frutos do mar

Eliane Marquiote Campos Xavier, que veio de Minas para Macaé ainda pequena, dedica-se há 27 anos ao ramo alimentício. O Lagostão surgiu em 1998, no bairro Campo D’Oeste. Seu esposo Kássio, já falecido, era pescador e gostava de preparar os pescados em casa. “Convidávamos amigos para compartilhar, mas o negócio cresceu e abrimos o Lagostão, mantendo o mesmo menu desde o início. Os clientes falam: ‘Venho aqui há 10 anos e é sempre o mesmo sabor!’. O mercado mudou, não havia redes sociais, as pessoas vinham porque era bom e não por modismo. Isso tem a ver com a cultura e tradição local. Viramos referência em frutos do mar, reunindo famílias que passam isso de geração para geração”, conta Eliane.

Gabriele Frazão com o marido Victor Gomide e a filha Valentina. Ela é cliente antiga do Lagostão e destaca a qualidade da comida do local, além do ambiente familiar. Seu prato preferido é o Peixe Frito à Milanesa. (Foto Alle Tavares)
Gabriele Frazão com o marido Victor Gomide e a filha Valentina. Ela é cliente antiga do Lagostão e destaca a qualidade da comida do local, além do ambiente familiar. Seu prato preferido é o Peixe Frito à Milanesa. (Foto Alle Tavares)

Gabriele Frazão é cliente antiga do Lagostão e não abre mão dos almoços em família no local. “A gastronomia de Macaé é muito rica, diversificada e não se resume apenas aos eixos principais. Temos restaurantes antigos, tradicionais, de alta qualidade e padrão em outros locais da cidade, e o Lagostão é um deles. Eu sempre brinco quando vou lá dizendo: ‘Gente, o Lagostão nunca erra, né?’, porque eles mantêm um padrão com receitas maravilhosas. É patrimônio histórico macaense que remete à família e, sempre que posso, corro para saborear meu prato favorito, que é o peixe frito à milanesa”, pontua.

Dona Maria Leoni Zielinski e sua família gerenciam o restaurante Sabores do Sul. Além da boa comida e do churrasco regional, a casatambém oferece produtos regionais em conserva para os clientes. (Foto Alle Tavares)
Dona Maria Leoni Zielinski e sua família gerenciam o restaurante Sabores do Sul. Além da boa comida e do churrasco regional, a casa
também oferece produtos regionais em conserva para os clientes. (Foto Alle Tavares)

Sabores regionais

Maria Leoni Zielinski é proprietária do Restaurante Sabores do Sul, aberto em 2012. Maria e sua família são de Santa Catarina e trabalham há 13 anos com buffet a quilo. Investir na área gastronômica veio da própria história e do desejo de compartilhar os sabores de casa. “Começamos como rotisseria, para que as pessoas levassem o sabor tradicional do Sul para casa. Com o tempo, percebemos que os clientes queriam uma experiência completa e expandimos com buffet no local, pratos feitos na hora, carnes assadas no bafo e na brasa, acompanhamentos e espaço pensado para receber bem”, conta Maria.

O Sabores do Sul oferece buffet variado e caprichado, com ingredientes selecionados e conservas artesanais, a erva-mate de qualidade, perfeita para chimarrão ou tererê bem gelado, como destaca o empresário André Ruiz.

O empresário André Ruiz é um apaixonado pela boa mesa, já atuou no segmento da gastronomia e é cliente do Sabores do Sul. (Foto Alle Tavares)
O empresário André Ruiz é um apaixonado pela boa mesa, já atuou no segmento da gastronomia e é cliente do Sabores do Sul. (Foto Alle Tavares)

A proximidade da comidinha de casa, acrescida de um bom churrasco, me levou a favoritar o Sabores do Sul. Além do mais, preparam e vendem deliciosas conservas, dentre outros produtos típicos do Sul do Brasil. A gastronomia popular é rica. Em capricho, simplicidade e servir bem. O lado B da gastronomia, em qualquer lugar do mundo, é curioso. Sempre busco essa opção em viagens. Em Praga, na República Tcheca, há restaurantes que servem refeições e cerveja desde antes do descobrimento do Brasil, e continuam no mesmo local, no lado B”, pontua André.

Macaé como um dos destinos gastronômicos do Rio

Nos últimos anos, Macaé destaca-se como polo gastronômico no interior do Estado do Rio, atraindo público aos seus festivais quase o ano todo, com variedade de sabores e tradições culinárias locais e contemporâneas, especialmente nos restaurantes da orla dos Cavaleiros.

O vice-presidente do Polo Gastronômico André Alcino em frente ao Estação da Moqueca. Primeiro restaurante da família, no Miramar, o início da sua história na gastronomia. (Foto Alle Tavares)
O vice-presidente do Polo Gastronômico André Alcino em frente ao Estação da Moqueca. Primeiro restaurante da família, no Miramar, o início da sua história na gastronomia. (Foto Alle Tavares)

André Alcino Neves de Carvalho é de família mineira, apaixonada por comida boa e que veio de Muriaé há mais de 23 anos, quando abriram o restaurante Estação da Moqueca, no Miramar, bairro bucólico no coração da cidade. Por muito tempo, o restaurante foi uma referência de gastronomia Lado B em Macaé, com uma comida de qualidade, bem servida e num ambiente familiar. O negócio deu tão certo que ele e seus irmãos decidiram expandir os negócios, adquirindo outros restaurantes nos Cavaleiros e Glória como: Estação da Praia, Estação do Pastel, Trattoria do Nutte, Benedito Bar e Grill e a casa de festas Estação 972.

Hoje, André ocupa o cargo de vice-presidente do Polo Gastronômico e se orgulha da evolução da cidade no setor. “O Polo foi criado há 15 anos, em um momento de auge do petróleo. Foi um ato de união que superou duas crises, a pandemia, e ainda criou eventos de sucesso que são referência no estado”, destaca.
Esse trabalho coletivo fortaleceu a identidade gastronômica local, colocando Macaé no mapa nacional da gastronomia, valorizando os grandes restaurantes e o lado B da culinária, que permanece essencial para a alma da cidade.

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