Muito além dos holofotes e da badalação dos grandes restaurantes, do requinte e do luxo, existe um vasto universo na gastronomia que pulsa com autenticidade e histórias pouco contadas. É o chamado lado B da gastronomia, um conceito onde o foco não está apenas no prato servido, mas na trajetória de quem o prepara, nas peculiaridades do ambiente, nas receitas de família resgatadas e na paixão pela cozinha. É nesse lugar que moram narrativas menos conhecidas, mas profundamente marcantes que resistem fora do circuito comercial tradicional, movidas por vínculos afetivos, identitários e culturais.
Essas cozinhas, longe das grandes redes e das mesas estreladas, revelam o que a gastronomia popular significa para muitas comunidades. São estabelecimentos que resistem e oferecem o verdadeiro sabor da história e da cultura local, preservando sabores, técnicas e memórias que passam de geração para geração.

O chef, pesquisador gastronômico e proprietário do Bar do Djalma, Hugo Ramos Dias, é um entusiasta desse universo. Ele traz o olhar atento à comida de rua, presente no dia a dia, que alimenta e, de certa forma, não é valorizada nem registrada. “São restaurantes fundamentais, que fazem a cidade funcionar. É quem fornece a média com pão na chapa de manhã, serve o PF do almoço e alivia a dureza da rotina com uma gelada à noite. É quem segura a barra do povo”, afirma Hugo.
Segundo ele, a gastronomia macaense é muito diversa, mas com um traço em comum: a identidade. São bares e restaurantes que carregam marcas da história local. “Não são o que chamo de ‘enlatados’, estabelecimentos iguais em qualquer cidade, com o padrão da moda, do hype. O lado B é real no tempero, no acolhimento, são únicos. Temos referências incríveis aqui em Macaé como o Cantinho da Bahia, no Lagomar; a comida mineira do Paiol de Minas, na Aroeira; os frutos do mar do Docas, no Visconde; a feijoada do Bar do Mineiro, na Praia Campista; e o tradicional Angu Macaense, entre outros. É essa galera que existe e resiste longe dos holofotes e grandes incentivos”, enfatiza o pesquisador.
Comida mineira e de boteco

Entre esses personagens que mantêm viva a chama da gastronomia local, está Marco Antônio, o Mineiro, que, com sua esposa Rosângela Ferreira, serve uma das feijoadas mais gostosas da cidade há 20 anos. “A feijoada servida às sextas e sábados é nosso carro-chefe e traz muitos clientes, vários conquistados pelo boca a boca. Durante a semana, temos um cardápio variado, com até cinco pratos por dia. A gastronomia popular ganhou visibilidade, as pessoas notam e isso representa uma mudança. Existem oportunidades para todos, mas escolhemos onde queremos estar, e optamos por proporcionar essa experiência num cantinho especial, aqui no Campo D’Oeste”, conta Marco.
Entre os frequentadores, o médico Gustavo Pinheiro Filho conheceu o Restaurante do Mineiro há três anos e virou fã. “O melhor dia é quando tem roda de samba, para reunir os amigos e relaxar. O lugar é agradável e animado. Sou fã das entradinhas e caldos, especialmente, a moela e o caldinho de feijão. A gastronomia do eixo mais badalado evoluiu e atingiu os níveis dos grandes centros, mas não podemos esquecer da praticada fora desse contexto, que deve ser valorizada pelas peculiaridades que enriquecem a cultura e a gastronomia da cidade”, diz Gustavo.

Frutos do mar
Eliane Marquiote Campos Xavier, que veio de Minas para Macaé ainda pequena, dedica-se há 27 anos ao ramo alimentício. O Lagostão surgiu em 1998, no bairro Campo D’Oeste. Seu esposo Kássio, já falecido, era pescador e gostava de preparar os pescados em casa. “Convidávamos amigos para compartilhar, mas o negócio cresceu e abrimos o Lagostão, mantendo o mesmo menu desde o início. Os clientes falam: ‘Venho aqui há 10 anos e é sempre o mesmo sabor!’. O mercado mudou, não havia redes sociais, as pessoas vinham porque era bom e não por modismo. Isso tem a ver com a cultura e tradição local. Viramos referência em frutos do mar, reunindo famílias que passam isso de geração para geração”, conta Eliane.

Gabriele Frazão é cliente antiga do Lagostão e não abre mão dos almoços em família no local. “A gastronomia de Macaé é muito rica, diversificada e não se resume apenas aos eixos principais. Temos restaurantes antigos, tradicionais, de alta qualidade e padrão em outros locais da cidade, e o Lagostão é um deles. Eu sempre brinco quando vou lá dizendo: ‘Gente, o Lagostão nunca erra, né?’, porque eles mantêm um padrão com receitas maravilhosas. É patrimônio histórico macaense que remete à família e, sempre que posso, corro para saborear meu prato favorito, que é o peixe frito à milanesa”, pontua.

também oferece produtos regionais em conserva para os clientes. (Foto Alle Tavares)
Sabores regionais
Maria Leoni Zielinski é proprietária do Restaurante Sabores do Sul, aberto em 2012. Maria e sua família são de Santa Catarina e trabalham há 13 anos com buffet a quilo. Investir na área gastronômica veio da própria história e do desejo de compartilhar os sabores de casa. “Começamos como rotisseria, para que as pessoas levassem o sabor tradicional do Sul para casa. Com o tempo, percebemos que os clientes queriam uma experiência completa e expandimos com buffet no local, pratos feitos na hora, carnes assadas no bafo e na brasa, acompanhamentos e espaço pensado para receber bem”, conta Maria.
O Sabores do Sul oferece buffet variado e caprichado, com ingredientes selecionados e conservas artesanais, a erva-mate de qualidade, perfeita para chimarrão ou tererê bem gelado, como destaca o empresário André Ruiz.

“A proximidade da comidinha de casa, acrescida de um bom churrasco, me levou a favoritar o Sabores do Sul. Além do mais, preparam e vendem deliciosas conservas, dentre outros produtos típicos do Sul do Brasil. A gastronomia popular é rica. Em capricho, simplicidade e servir bem. O lado B da gastronomia, em qualquer lugar do mundo, é curioso. Sempre busco essa opção em viagens. Em Praga, na República Tcheca, há restaurantes que servem refeições e cerveja desde antes do descobrimento do Brasil, e continuam no mesmo local, no lado B”, pontua André.
Macaé como um dos destinos gastronômicos do Rio
Nos últimos anos, Macaé destaca-se como polo gastronômico no interior do Estado do Rio, atraindo público aos seus festivais quase o ano todo, com variedade de sabores e tradições culinárias locais e contemporâneas, especialmente nos restaurantes da orla dos Cavaleiros.

André Alcino Neves de Carvalho é de família mineira, apaixonada por comida boa e que veio de Muriaé há mais de 23 anos, quando abriram o restaurante Estação da Moqueca, no Miramar, bairro bucólico no coração da cidade. Por muito tempo, o restaurante foi uma referência de gastronomia Lado B em Macaé, com uma comida de qualidade, bem servida e num ambiente familiar. O negócio deu tão certo que ele e seus irmãos decidiram expandir os negócios, adquirindo outros restaurantes nos Cavaleiros e Glória como: Estação da Praia, Estação do Pastel, Trattoria do Nutte, Benedito Bar e Grill e a casa de festas Estação 972.
Hoje, André ocupa o cargo de vice-presidente do Polo Gastronômico e se orgulha da evolução da cidade no setor. “O Polo foi criado há 15 anos, em um momento de auge do petróleo. Foi um ato de união que superou duas crises, a pandemia, e ainda criou eventos de sucesso que são referência no estado”, destaca.
Esse trabalho coletivo fortaleceu a identidade gastronômica local, colocando Macaé no mapa nacional da gastronomia, valorizando os grandes restaurantes e o lado B da culinária, que permanece essencial para a alma da cidade.