Notícias e Variedades de Macaé
Início » Comment » Link permanente de comentário » Comentar

Comentar

Amamentação, um ato de amor e doação

qui, 09/04/2020 - 12:38 -- Leila Pinho
Categoria: 
Créditos: 
Fotos Alle Tavares/ Ana Amado/ Leila Pinho e Adrielle Farias
Maria Amamentando

Ao colocar a boquinha no peito, sugar o leite e olhar obstinadamente para a mãe, talvez o bebê acredite que eles são um só. Muitas delas dizem que sentem dor quando começam a amamentar. Mas é comum o relato das mulheres, de que o incômodo se torna mínimo se comparado ao forte vínculo construído nesse ato instintivo, capaz de nutrir e salvar vidas.

A amamentação de todos os bebês nos primeiros dois anos, pode salvar a vida de mais de 820 mil crianças com menos de 5 anos, todos os anos, segundo informações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). As instituições publicaram, em 2018, uma nova orientação com 10 passos para aumentar o apoio ao aleitamento materno.

Já na hora do nascimento, uma ação de apoio é fundamental. Foi o caso de Cauã, filho de Maria Souza, de 31 anos. Ainda na sala de parto, assim que nasceu, ele foi conduzido ao peito da mãe. “A pediatra colocou o Cauã na posição, mas ele não mamou”, recorda Maria. Segundo explica a pediatra Michele Thomaz, é essencial aleitar na primeira hora após o nascimento. “Esse ato favorece o aleitamento materno. Na primeira hora após o parto, a criança está em vigília e tem mais chances de sugar o leite, por isso é importante já estabelecer o vínculo nesse momento. Depois, o bebê entra em sono profundo. Esse ato, também promove uma segurança na mãe e funciona como um gatilho positivo”, esclarece Michele.

Dra Michele Thomaz pediatra

O Ministério da Saúde e a OMS recomendam que, ao nascer, o bebê seja colocado para mamar na primeira hora de vida. Há estudos científicos que mostram os benefícios dessa prática. Maria seguiu várias outras orientações dos órgãos de saúde, como o aleitamento materno exclusivo até o 6º mês de vida. E, atualmente, com Cauã já com 2 anos, ela continua amamentando, geralmente na hora de dormir. Ela entende a importância do ato para a saúde do filho e curte todo o afeto vindo desse momento. “O desapego está difícil. Vou sentir falta. O vínculo é muito forte, é como se a gente voltasse a ser um só. Mas estou deixando acontecer naturalmente”, diz Maria.

 

Aleitamento materno é vida

A realidade brasileira ainda é distante do preconizado pelos órgãos de saúde. Um relatório da OMS e Unicef, divulgado em 2017, revelou um índice de apenas 38,6% de amamentação exclusiva entre crianças com até seis meses.

Segundo explica a pediatra, o aleitamento materno promove o desenvolvimento e crescimento do bebê, há benefícios nutricionais, emocionais e psicológicos. Nutricionalmente, o leite tem a quantidade exata de proteínas e calorias que a criança precisa e, além disso, produz anticorpos e bactérias que protegem o sistema digestivo do bebê e favorece o fortalecimento da imunidade.

Michele defende que a lactação seja feita num momento tranquilo, privilegiando a conexão entre a mãe e o neném. “O olho no olho na hora de amamentar, nutre emocionalmente o bebê. A ação impacta positivamente o desenvolvimento cerebral da criança. É comprovado cientificamente que o bebê precisa do vínculo para se desenvolver melhor”, pontua.

Além das vantagens para o filho, também há benefícios para a mulher. Elas perdem peso mais rápido, chegando a gastar cerca de 800 kcal por dia, com a lactação. A nutrição da criança tem um efeito psicológico gratificante. “Ela se sente plena cuidando do filho, se sente poderosa de promover a saúde do filho”, ressalta Michele.

Mamaço Macaé

A relevância da amamentação é lembrada todos os anos, especialmente no mês de agosto, quando se comemora a Semana Mundial de Aleitamento Materno. E um movimento ligado à semana, que acontece em várias cidades do mundo, também tem presença em Macaé: a Hora do Mamaço. Segundo explica a fisioterapeuta e consultora em aleitamento materno, Letícia Pimentel, o Mamaço começou na Europa com a intenção de falar sobre amamentação em público. Ela faz parte do grupo Humanize, responsável por organizar a Hora do Mamaço na cidade. O evento é aberto ao público e conta com várias atividades como palestras educativas e vídeos, além da presença de diversas mães que fazem um grande e lindo mamaço, em local público. “O Mamaço é pras famílias também. Os familiares precisam estar bem informados para motivar as mães a amamentarem”, ressalta Letícia.

 

Rede de apoio

A rede de apoio para a amamentação é formada por todas aquelas pessoas que convivem com a mãe e o bebê, desde os profissionais de saúde até a família e os amigos. No documento os 10 passos para aumentar o apoio ao aleitamento materno, a ONU e a Unicef orientam: “Assegurar que o pessoal (profissionais de saúde) tenha conhecimento, competência e habilidades suficientes para apoiar a amamentação (...) Discutir a importância e o manejo da amamentação com mulheres grávidas e suas famílias (...) Apoiar as mães para iniciar e manter a amamentação e superar as dificuldades mais comuns.”

A engenheira Betânia Amaral Tavares, de 28 anos, mãe de João, de 9 meses, contou com uma ampla rede de apoio: profissionais de saúde, família e o suporte fundamental do marido, Matheus Costa Tavares, também engenheiro, de 31 anos. “O Matheus sempre participou da amamentação. No início, ele pegava o João, trocava a fralda e me dava pra amamentar. Enquanto isso, eu aproveitava para levantar e beber água. Isso é fundamental pra criar o vínculo e dividir responsabilidades. O bebê vai se sentindo seguro com o pai”, opina Betânia. 

Betânia e Matheus com o filho João

Quando Matheus olha e fala de João, os olhos brilham. Ele se considera um ativista da paternidade e contribui muito nos cuidados com o filho. “Eu já tinha ciência de que o meu papel seria de suporte. Eu pegava o João, dava colo, fazia ele arrotar. Tudo é novidade pra mim também. Também ficava ansioso pra pegada da mamada dar certo”, comenta. Ele conta sobre as diversas vezes que ajudou a esposa na hora de aleitar, fazendo compressas de água e acalmando-a. “Quando o João mamou pela primeira vez, tive a certeza de que estava tudo bem. Desde lá, vi que isso seria muito importante”, recorda o pai.

 

Amamentar em qualquer lugar

Assim como a criança não escolhe a hora da fome, a mãe também não escolhe quando dar de mamar. Tudo depende da necessidade de nutrição da criança e, por isso, muitas mães defendem o direito de aleitar livre de qualquer importunação, seja onde for. Recentemente, o Senado aprovou uma emenda no projeto de lei PLS 514/2015 que penaliza com multa, a violação do direito à amamentação. O projeto assegura o direito delas, de darem de mamar em local público ou privado, sem sofrer impedimento. A pena é de multa com valor não inferior a dois salários mínimos. A emenda já está na Câmara dos Deputados, que vai avaliar o texto e, se aprovado, seguirá para a sanção do presidente. Segundo explica a advogada Aline Narezzi, não existe nenhuma lei vigente que proíba a amamentação. “Isso quer dizer que a amamentação é permitida, é legal. Em alguns estados, a importunação às mães que amamentam em locais públicos já é proibida”, pontua. 

Fabiana Kopper amamenta LAura

A engenheira Fabiana Kopper, de 31 anos, é mãe de Laura, de 1 ano. Ela dá de mamar à filha em restaurantes, shoppings, mercados e em qualquer ambiente. Ela se sente à vontade para fazer isso em locais públicos. “Às vezes, eu percebo que alguém me olha torto, mas não dou importância pra isso, o importante é alimentar minha filha”, diz. Fabiana participou do projeto Amamentação Urbana, que incentiva o aleitamento materno em locais públicos e fotografou várias mulheres amamentando em Macaé. “Queria mostrar para outras mães que não é preciso ter medo, que não é vulgar, é um ato de amor. Fiquei feliz de participar do projeto e incentivar outras mães a amamentarem seus filhos”, conta Fabiana.

 

Dificuldades

Frequentemente, as mães enfrentam dificuldades para amamentar. Seja por causa das dores, pela pega do bebê, pela falta de preparo e de informações, pelo despreparo de alguns profissionais de saúde que deveriam apoiá-las e até pelas críticas da família e amigos próximos.

Gabriela e Benício

Gabriela da Costa André Silva, de 33 anos, que é mãe de Ana Luiza, 16, e Benício, de 1 ano, viveu duas experiências diferentes. Na primeira gestação, ela não tinha muita informação sobre como seria dar de mamar, mas não sentiu medo. O primeiro mês foi difícil, ela teve dores e o leite empedrou, mas depois foi muito tranquilo. Já com Benício, Gabriela se preparou melhor. Leu muito sobre amamentação e contou com o apoio de uma doula que a auxiliou com informações. Apesar disso, ela também passou por obstáculos. “Quando Benício nasceu, o leite não desceu. Ele puxava e só saía o colostro. Aí bateu o desespero. O leite só desceu três dias depois. Eu sabia que tinha que manter a calma e continuar tentando, mas achei que não fosse conseguir”, lembra. Nessa ocasião, Gabriela contou com a ajuda da doula, que a explicou sobre a pega do bebê e transmitiu tranquilidade. O desespero passou e Benício deu sua primeira grande mamada. Segundo explica a pediatra Michele Thomaz, a descida do leite acontece na primeira semana, após o nascimento.

A dificuldade de amamentar gera culpa, que gera sofrimento. Toda mulher tem dúvida se vai conseguir amamentar. Eu também tenho. Como suprir? Só vivenciando, no dia a dia e tendo apoio”, orienta a pediatra que estava grávida quando foi entrevistada.

A diretora de escola Raquel Camolezi, de 38 anos, viveu conflitos intensos após sua filha Helena, de 2 anos, nascer. Três anos antes de engravidar, Raquel havia feito cirurgia de redução de mama e seus dutos mamários foram cortados. Porém, ela não sabia disso e tampouco que, com os dutos cortados, ela não conseguiria dar de mamar. “Como eu não me preparei para não amamentar, foi frustrante. A gente tende a idealizar a amamentação como algo perfeito”, comenta. Na consulta com o pediatra, a mãe via que a filha tinha perdido peso e se sentia culpada. Isso gerou um grande sofrimento em Raquel e desencadeou a depressão pós-parto.

Raquel e a filha Helena

Ela se tratou com psiquiatra e contou com o apoio da família e profissionais de saúde. A diretora recorda sobre como a contribuição dos pais dela e do marido foram fundamentais. Aos poucos, Raquel se recuperou. “Meu pediatra dizia, que não era só do leite materno que minha filha precisava. Ela precisava de vínculo afetivo. Quando eu entendi isso, o fardo foi diminuindo. Eu tive a depressão e superei. Isso me fortaleceu e me fez ver as coisas de uma outra forma. Passei a valorizar coisas mínimas como um passeio de domingo. E hoje está aí a Helena, linda”, fala Raquel.

 

Experiências opostas e uma causa comum

As servidoras públicas Aline Santos e Lívia Sá (consultora de amamentação) viveram experiências opostas com relação à amamentação dos filhos e transformaram em uma causa nobre, criando o projeto Amor Líquido, em 2017. Quando Lívia teve Arthur, o bebê precisou ficar na UTI porque tinha problema respiratório. Na época, Lívia não tinha leite suficiente para o filho e, só então, descobriu que Macaé não tinha um Banco de Leite. Ela ficou indignada. Em contraponto, quando o filho de Aline nasceu, o Antônio, a produção de leite era excessiva. Ela descartava, em média, 500 ml de leite por dia. Algum tempo depois, as duas se conheceram e decidiram fazer uma campanha em prol do Banco de Leite.

Amor Liquido Macaé

O Amor Líquido já fez várias ações em prol da criação do Banco de Leile, como caminhadas e reuniões com os poderes legislativo e executivo. Segundo explica Lívia, o projeto para a criação do Banco de Leite Humano, em Macaé, existe desde 2013. Em 2018, o Banco de Leite entrou na lista de metas da Secretaria de Saúde, mas até agora, ainda não foi criado.

A equipe de reportagem da DiverCidades procurou a Prefeitura de Macaé para apurar sobre o assunto, mas o governo não concedeu entrevista e se limitou a informar que o projeto está em fase de elaboração pela Secretaria de Obras. “Fico feliz por tudo que o projeto já andou mas, ao mesmo tempo, frustrada porque o Banco de Leite podia estar pronto” desabafa Lívia. “Existe falta de informação até entre os profissionais de saúde e o Banco de Leite, além de coletar e doar leite, pode ser um local de informação sobre amamentação, pra apoiar e acolher a mulher”, finaliza Aline.

 

Texto Leila Pinho 

Edição nº 49 - Abril 2019

Revista Digital

 

Seu comentário será liberado pelo administrador. Informe-se sobre as regras de moderação de comentários no Termo de uso.
CAPTCHA
Resolva a soma abaixo por questões de segurança
13 + 2 =
Solve this simple math problem and enter the result. E.g. for 1+3, enter 4.