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O belo e suas formas

seg, 31/07/2017 - 14:12 -- Gláucia Pinheiro
Categoria: 
mulheres padronizadas todas iguais

Os tempos ditos hipermodernos são marcados por paradoxos. Tempos guiados pelo princípio do prazer e pelo imperativo da felicidade. Uma interrogação persegue a ordem imperativa: o que faz o homem contemporâneo feliz? À felicidade, tão almejada, soma-se a busca pelo sucesso, pela beleza e juventude, e esta se torna, como todas as coisas desse nosso tempo, um objeto, um bem a ser consumido.

Na coluna de hoje trazemos uma breve reflexão sobre esse tema que estampa as capas das mais diversas revistas de moda e saúde, os outdoors publicitários e enche as academias de ginástica e os consultórios médicos. A ditadura da beleza. A cultura, a civilização, não dispensa certa devoção à beleza. Desde os tempos mais primitivos o homem busca esse senso estético, na construção de monumentos, de obras de arte e no culto ao corpo. Os padrões estéticos marcam e são marca de uma época. E a felicidade, assim como em outros tempos idos, também é buscada no gozo da beleza. Refugiar-se nas coisas belas, “na atitude estética dos objetos”, nos afasta do nosso sofrer, embora a beleza, simplesmente, não nos proteja contra as dores do mundo. Uma das fontes mais intensas de sofrimento, dor e mal-estar para o homem é a decadência do próprio corpo. O corpo, seu próprio corpo, fadado ao declínio, ao envelhecimento, às doenças e à finitude, é a primeira fonte de sofrimento que o afeta.

Na lógica da nossa época onde o sofrer precisa ser eliminado, nada mais atual para justificar as mais intensas intervenções no corpo, que hoje são ofertadas pela medicina e pela ciência, na intenção de mantê-lo jovem, bonito e saudável. Soma-se a esse ideal de beleza, a ilusão da juventude eterna. Acrescenta-se aí mais uma pitada. Além de belo e jovem, o corpo precisa ser magro. Tudo isso travestido desse ideário de saúde. Um discurso perverso que aponta esse “bem”, esse corpo perfeito, belo, magro e saudável, padronizado, para todos. Assim, essa ditadura contemporânea que traz como bandeira o belo e incide sobre o corpo, torna-se um sintoma social sustentado num tripé: beleza, magreza, saúde.

A boa forma ou a bela forma, imposta como padrão, exige a juventude e o corpo perfeito, magro e belo. Ser jovem é ser belo. Ser belo é ser magro. Ser magro é ser saudável. Mesmo à custa da saúde. Será? Precisamos nos interrogar. O que nos faz acreditar nessa ilusão?

Vivemos hoje numa civilização do espetáculo, regida pelo mito de Narciso, onde homens, mulheres e crianças se veem inebriados pelo culto da própria imagem, da bela imagem. Tempo onde o que comanda as relações, de consumo, são os padrões estéticos. Relações sustentadas na virtualidade da imagem exposta nas mais diversas redes sociais. Nesses tempos narcísicos, os padrões ultrapassaram a barreira da felicidade. O belo não se apresenta como refúgio à infelicidade comum. Não basta nos mostrarmos felizes. É preciso mostrar uma vida que seja invejável. E o corpo, tomado nessa lógica como um “bem” a ser consumido e fonte de consumo de tantos outros objetos e produtos ofertados com a promessa de torná-lo saudável, entra nesse circuito do ideal de um imaginário social. É preciso que ele seja mais que belo, é preciso que seja perfeito e desejável como objeto a ser consumido.

A novidade no discurso perverso contemporâneo não é o padrão estético imposto, muito menos a busca por uma qualidade de vida saudável, mas sim a culpa que ele deposita sobre o sujeito. O julgamento moral que situa o sujeito como culpado por sua condição e sustenta a fantasia de que esse ideal é acessível a todos. Se o ideal imposto é o da magreza, a gordura passa a ser vista como doença. Se é possível “comprar” um corpo magro, belo, sarado e saudável, aquele que não o tem é porque não o quer.

Assim, a indústria do culto ao corpo perfeito movimenta o mercado nos seus mais variados segmentos. Cirurgias, intervenções estéticas, produtos e mais produtos para uma alimentação saudável, dietas as mais variadas e a proliferação de diversas atividades físicas e de profissionais da beleza e da vida saudável. E para além disso, o mais grave, um catálogo de doenças contemporâneas, associadas à beleza, que se tornam quase que epidemias nas queixas daqueles que se submetem à ilusão desse discurso totalitário, imperativo e perverso.

Uma linha tênue vem separando a vida saudável da doença da beleza. A pergunta precisa insistir: precisamos viver nesse regime ditatorial? Por que precisamos de padrões pré-estabelecidos para nos ditar o que é belo e saudável? É preciso deixar cair a ilusão do padrão para se dar conta de que o diferente também é belo e que este tem suas várias formas. Talvez aqueles que estejam presos nessa ditadura da beleza, da magreza e da saúde estejam de fato mais doentes do que muitos gordinhos gostosos.
 

Eu sou Gláucia Pinheiro, psicanalista
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