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“Adoro um amor inventado”, da era do amor virtual

seg, 17/04/2017 - 14:56 -- Gláucia Pinheiro
Categoria: 
amor virtual

Na coluna desse mês falaremos sobre o amor. Amor inventado da era virtual, não o amor romântico que sempre ficou a cargo dos poetas. Amor é matéria de poesia. E os poetas, autoridade máxima nessa matéria.

Já se passou quase o tempo de uma geração que Cazuza cantou o exagero do amor, com suas rosas roubadas e se jogando aos seus pés, mas sem esquecer daquilo que tempera, dá sabor e um colorido vivo às relações, a fantasia. Essas são parte fundamental da invenção e das aventuras amorosas.

Mas o amor inventado que vem sendo adorado nesses tempos hipermodernos está longe desse amor cantado por Cazuza e enaltecido pelos poetas. A fantasia, que sempre esteve presente na construção dos romances, povoando o imaginário, ganhou outro estatuto. A era virtual, com a primazia da imagem, trouxe uma nova marca para as relações. Encontros virtuais e desencontros reais. Sites, aplicativos e promessas de afastar a solidão se proliferam, atando o sujeito conectado ao mundo brilhante da tela do celular.

Um enorme paradoxo se instaura a partir dessa presença ausente marcada nessas relações. São status “online”, marcadores de visualização, emojis que substituem palavras, nudes, uma escrita própria do novo amor que assim vai se constituindo a partir das relações virtualizadas. Mas de que amor estamos, então, falando? Frida Kahlo, intensa nas suas relações com o amor, já dizia para não se demorar onde não puderes amar. As relações hoje vão se construindo nessa intimidade superficial, tendo como marca esse paradoxo. Relações fugazes, fugidias, instantâneas. Relações marcadas pela satisfação imediata do desejo. Amor comum, sensual, marcado pelo princípio que rege nossos tempos, o princípio do prazer. Um amor a ser consumido e descartado como todos os objetos que entram nesse circuito da fuga e da satisfação. Porém o amor, esse amor, cantado o contado pelos poetas e escritores, exige um investimento duradouro, em que seja possível amar também nos intervalos sem desejo.

Freud, em seu texto tão atual “O mal-estar na civilização” (1930), nos aponta que uma das maiores fontes de sofrimento e mal-estar para o homem é a relação com o outro. É nesse encontro, marcado pelo desencontro, de onde provem nossas mais intensas angústias e decepções. Ele também nos situa, que apesar disso, uma das principais formas que encontramos de buscar a felicidade e fugir do sofrimento é refugiando-se no amor, colocando-o no centro, esperando toda satisfação em amar e ser amado.

Não basta amar. Demandamos amor. Toda demanda é uma demanda de amor, como afirma Lacan. E assim, o paradoxo se instala, pois “nunca estamos mais desprotegidos ante o sofrimento do que quando amamos, nunca mais desamparadamente infelizes do que quando perdemos o objeto amado ou seu amor” (Freud).

O filme argentino Medianeras (2011) nos convida a uma interrogação sobre esses novos tempos e essa nova forma de se colocar a amar. Se o amor demanda amor e não deixa de demanda-lo, como fazer resistência a essa forma tão fugaz que o amor vem se apresentando nas relações. Mariana e Martin são praticamente vizinhos na claustrofóbica Buenos Aires de prédios altos, apartamentos minúsculos, fios e mais fios encobrindo o céu, antenas que possibilitam as conexões. Passam pelos mesmos caminhos, transitam pelas mesmas ruas, sem se verem, no desencontro cotidiano. Um breve encontro virtual interrompido pela falta de energia. Encontram-se na escuridão do supermercado em busca de velas, mas não se reconhecem pela voz. Não há voz, só teclas, palavras digitadas. Abrem uma janela irregular nas suas medianeras, se olham, sem se verem. Como se não houvesse encontro possível fora da virtualidade. Mariana guarda um livro da sua infância, “Onde está Wally”. Encontrou Wally em todas as páginas, em todos os lugares. Porém, cansa-se de procurar e não encontra Wally na cidade. A procura insistente por Wally na cidade, pelo amor em meio ao caos, a impede de enxergar que o amor pode estar do seu lado. Mas é de repente, sem a procura intensa, ao fechar a janela virtual e olhar pela irregular janela aberta na medianera do prédio, que Mariana, em meio ao caos, encontra Martin, encontra Wally na cidade. Encontra a possibilidade real, na vida real, de se demorar mais que um breve instante no encontro do amor.

Para se demorar no amor e amar também nos intervalos sem desejo e para além da superficialidade é preciso encontro. É preciso encontro real. É preciso suportar a incompletude, a diferença e os tropeços do desencontro. Não é preciso status na rede social, mas sim resistir à efemeridade da bela imagem. E que possamos, como forma de resistência, resgatar os poetas que tanto enaltecem o amor e a fantasia e abrir janelas para as possibilidades de novos encontros reais.

 

Eu sou Gláucia Pinheiro, psicanalista
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