Escrevo essa coluna no último dia de fevereiro. Já quase na hora da virada. Março soprando na janela. Como sempre, atrasada para entregar essas palavras ao vento.
Fevereiro é, para mim, um mês de comemorações, onde festa e fé se encontram, onde celebrar é palavra de ordem. Sou meio como Maria Bethânia, me guardo e guardo as importâncias para fevereiro. Fevereiros são inícios, querências, quando, de fato, os caminhos se abrem para desbravar um ano novo. Começa com banho de mar, lavando e levando medos e mágoas. Segue soprando desejos nas velas que protegem o correr dos anos. Se descortina com borogodó e brilho, onde a rua é altar encantado com chão de purpurina.
Fevereiro é carnaval. É quando o samba, com seu feitio de oração, mostra sua força. É festa da carne, onde os corpos, como bandeira de resistência, ganham a rua. Corpos que se colorem, se fantasiam, brilham, sonham, dançam. O batuque percute na batida do coração. “É reza no corpo, é dança na alma”, como canta o lindo samba da Beija-Flor. De olhos fechados, com o coração a batucar, todo canto se torna reza. O profano se sacraliza e o sagrado se profana, e a rua se transforma num grande terreiro, num ritual de encantamento, em que história, cultura e ancestralidade se enodam, como nos ensina o historiador Luiz Antônio Simas.

Como um ato político, o samba ensina, é letramento. O carnaval é escola. É a escola da rua, na rua, transmitindo um saber-fazer com a dor, com o sofrimento, a precariedade, as diferenças. É aula de cidadania, de solidariedade.Noel Rosa já dizia que ninguém aprende samba no colégio. Mas deveria. O samba deveria ser matéria obrigatória na construção política e cultural de nosso povo. O samba e o carnaval nos ensinam sobre pertencimento e comunidade, sobre origem e história, sobre força e fé. Luiz Antônio Simas também diz que o carnaval é um organizador de mundos. É também uma questão existencial. Assim como é reza, o samba é também terapia popular, como se canta num antigo samba que não me lembro o nome. E não acaba na quarta-feira, com as luzes da avenida se apagando e as fantasias voltando pro barracão.
A teimosia em fazer da alegria um modo de vida e transformar em poesia as coisas miúdas, repercute nos tambores que continuam ressoando para além de fevereiro. Que o brilho que carregamos no corpo e no olhar durante os festejos não se apague. Que aquele pontinho luminoso que se acende, perdido, num canto da sala ou da calçada, nos lembre que é a sorrir que vamos levando a vida. Que nos momentos de angústia, dor e desânimo, o samba nos lembre que cantando é possível mandar a tristeza embora.Pois o samba é pai do prazer, o samba é filho da dor e tem um grande poder transformador.
Que as águas de março, que se anteciparam e já se derramaram nesse fim de fevereiro, lavando a alegria e deixando um rastro de tristeza e desolação, possam também se transformar em samba, em tom menor. Que sirva de cura para as dores, depois do temporal. Que a gente possa nas frestas da dura realidade, encontrar purpurinas, sonhos e esperança.
GLAÚCIA PINHEIRO
Psicóloga/Psicanalista
Mestre em Educação (UFJF)
Doutora em Psicologia (UFRJ)
Contatos:
Instagram: @glauciappsicanalise
Cel/ Whats: 22 98151 0432
E-mail: galpinheiros03@gmail.com
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