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Precisamos falar sobre suicídio

qui, 29/09/2022 - 21:49 -- Divercidades
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O sofrimento é uma condição humana. Desde que nascemos e mergulhamos no caldo cultural da linguagem, nos debatemos com os mistérios e enigmas em torno da morte e do morrer. É nesse intervalo, entre o nascimento e a morte, que a vida acontece, num rasgar-se e remendar-se, como poetisa Guimarães Rosa. Na busca constante de eliminar o desprazer do sofrer e encontrar a tão almejada satisfação, o homem vai experimentando as dores e delícias de sua condição. É bem menos difícil experimentar a infelicidade, como nos ensina Freud ao falar do mal-estar que permeia a cultura. Esta só se apresenta como um fenômeno episódico. Embora pareça existir uma regra de ouro para encontrar a felicidade, ela é inteiramente subjetiva e cada um precisa buscar a sua maneira de ser feliz.
Não é sem razão que Liev Tolstói diz que “todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. Assim como a felicidade, o sofrer é subjetivo e imensurável. Não há uma régua capaz de medir, quantificar e qualificar a dor. Quando ela beira o insuportável, esbarra na desesperança, encontra o desamparo e fica de cara com o desespero, sair de cena se apresenta como solução, como forma de eliminá-la. O suicídio entra aí, como esse ato de matar a si mesmo, como forma de acabar com essa dor tão doída de existir.
Por que temos tanta dificuldade de falar e abordar o tema do suicídio de forma clara e sem preconceitos? Porque esse ato está envolto pelo tabu da morte. A relação do homem com a morte foi se desdobrando ao longo do tempo e dos avanços culturais. Mas ela segue sendo um enigma. Não há um saber concreto que a explique. Para a psicanálise, não há uma representação da morte no inconsciente. É a religião que vai se apropriar desse mistério, buscando decifrar os enigmas do pós-morte e estabelecendo o mandamento ético/cristão “não matarás”, nem a si mesmo. O suicídio, que sempre existiu na humanidade, ganha essa roupagem pecaminosa e moralizante, preconceituosa e estigmatizada, a partir do pensamento ocidental cristão.
E por que precisamos falar sobre o suicido sem as amarras dos estigmas e preconceitos? Porque o suicídio hoje, em nossa cultura, é uma questão de saúde pública. Na contramão do que acontece no resto do mundo, no Brasil e na América Latina, vemos o número de casos de suicídio aumentar. É a segunda principal causa de morte entre os jovens de 15 a 29 anos. O caminho para prevenir é não silenciar. É falando, discutindo, informando que podemos tirar do tema do suicídio o véu do silêncio, do estigma e da descriminação. É falando que o sujeito pode elaborar sua dor, encontrar caminhos para enfrentar o sofrimento existencial que o habita, buscar acolhida para seu desamparo. E é na escuta, sem julgamentos e preconceitos, que se pode acolher o outro com sua dor de existir. Falar é prevenir. Não silenciar é cuidar.
Com o objetivo de quebrar os tabus e estigmas do suicídio, o Setembro Amarelo se transformou numa das maiores campanhas de prevenção do mundo. No Brasil, desde 2015, acolher e escutar passaram a ser palavra de ordem no enlace entre educação e saúde preventiva. Promover a saúde mental é conscientizar e dar voz ao sofrer. O caminho para fazer da vida a melhor escolha é a acolhida, o cuidado, o afeto, sem moralizar ou menosprezar a dor do outro. É esparramar o setembro pelo ano todo, todos os dias.  É seguir à risca o conselho de Clarice (Lispector), esse sim, válido para todos: quando um amigo lhe chamar para ajudar a cuidar da dor dele, coloque a sua no bolso e vá. De ouvidos, braços e peito abertos!

Gláucia Pinheiro

 

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