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O dia em que vovô virou estrela. Precisamos falar sobre o luto

sex, 10/11/2017 - 09:10 -- Gláucia Pinheiro
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desenho de criança olhando pro céu e vendo estrelas

O menino tinha lá seus cinco anos. Até ali era só sorrisos e festa. O choro e a dor só apareciam quando ralava o joelho ou perdia um brinquedo para um amiguinho. A saudade, essa sim sua conhecida, se manifestava quando, no final das tardes de domingo, tinha que entrar no carro e ver o vovô sumir ao longe no caminho da estrada. Mas logo a saudade ia embora, no sorriso e no abraço do reencontro.

Era uma tarde de verão, dessas que o dia se estende e a noite custa a deixar aparecer as estrelas. Aquela tarde pareceu mais longa que todas as outras. Não houve sorrisos, nem abraços, nem reencontro. Um silêncio gelado. Os adultos andando de um lado para o outro, olhos inchados e o menino sozinho, esquecido num canto. Ele sentou-se no meio fio, esperando ansioso o silêncio fazer barulho. Espera atenta pelo som da chave a tilintar e o assobio do vovô a convidar para uma nova aventura.

O céu começou a tomar forma de noite. O azul foi dando lugar a um alaranjado nunca visto. Aos poucos um vermelho arroxeado cobriu o céu. O escuro da noite se aproximando. A primeira estrela brotou no céu ao mesmo instante em que a mãe sentou-se ao seu lado. Ele viu, acolhido no seu abraço, a mãe derramar o mar pelos olhos. Dirigiu os olhos para o céu convidando o menino, apontando aquela única estrela que brilhava radiante. O vovô agora estava lá, a guiar o caminho.

O menino não derramou o mar pelos olhos. Secou o salgado do olhar da mãe e sorriu. Naquela noite a mãe lhe apresentou um outro menininho que sorria nas estrelas.

O tempo passou. O menino aprendeu muito cedo que não se consegue segurar o tempo. Aprendeu uma outra saudade, onde não há reencontro. Aprendeu a suportar o buraco doído e profundo do vazio se acolhendo na lembrança. Aprendeu que a efemeridade é marca da vida e que da morte não há registro que conforte.

E todos os dias, ao cair da tarde e ao brotar da primeira estrela no céu, até hoje, o menino, agora homem feito, se senta no meio fio, levanta os olhos e escuta o sorriso e o assobio do vovô a se aventurar nas alturas.

Precisamos falar sobre o luto

Como o dia de finados é neste mês, optei por falar deste tema, ainda que o dia já tenha passado. Nesta data, dedicamos à lembrança daqueles que perdemos e falamos da morte de forma autorizada, nada mais apropriado do que falarmos do luto, desse sofrimento tão intenso e que faz parte da condição humana. O que leva alguém a buscar uma análise ou psicoterapia? O sofrimento. Sofrer faz parte da vida. E muitas vezes, é diante dessa intensa dor sem palavras da perda que, no desamparo, o sujeito busca um analista. Ao analista cabe acolher essa dor, escutá-la e permitir que cada um a elabore a sua maneira. Se a perda, a morte, é marca da vida, o luto é necessário e está no nosso cotidiano.

Em um de seus textos mais poéticos, Freud nos ensina sobre a transitoriedade e a fugacidade da existência. A vida de todas as coisas é perene, fadada ao término. É justamente essa efemeridade que lhe empresta um renovado encanto.

Diante dessa única certeza que a vida nos impõe, uma veemente negação se apresenta. A perda é inerente à vida. Perdemos desde que abrimos os olhos para conhecer o mundo. Não perdemos apenas com o dilaceramento da morte, que abre no homem um rasgo confrontando-o com seu desamparo e com a avassaladora solidão. Ponto sem palavras que exige, como também nos ensina Freud, trabalho.

Passar pelo luto, seja ele da morte, da separação, do distanciamento, da decepção, exige do homem um esforço. Não é sem motivos que nomeamos esse tempo de trabalho de luto. Luto é luta. Luta interno para, apesar de, seguir em frente, abrir mão do que se foi, reerguer-se do desamparo e costurar a fenda, ficando a cicatriz. Trabalho que exige não só luta, mas tempo.

O que resta desse trabalho? A lembrança. Que mantém viva a memória e a saudade. Memória que nos mantém vivos até o último a lembrar de nós. Saudade que, graças ao tempo, perde o amargor e traz uma leve doçura.

Quanto ao inevitável da morte, aprendemos com o Pequeno Príncipe, levantamos os olhos para as estrelas e ouvimos o sorriso que conforta. Quanto à perenidade da vida, ficamos com a canção de Gonzaguinha e o que ela nos traz de mais belo, pois é isso que faz a vida tão bonita.

Lutemos, fazendo da vida, apesar da dor e da fugacidade, um instante belo. Até a próxima coluna!

Eu sou Gláucia Pinheiro, psicanalista
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