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Luxo hoje é ostentar saúde mental

qui, 02/12/2021 - 17:53 -- Divercidades
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Arte
Por que estamos tão adoecidos mentalmente? Por que vivemos tão cansados? De que sofrem tanto os sujeitos contemporâneos?

Mais um ano chegando ao fim. Mais um ano que passou voando. As luzinhas piscando pela cidade e os panetones nas prateleiras dos supermercados já anunciam o Natal e o encerramento dessa fatia de tempo nomeada 2021. Embora esse ciclo cronológico tenha início e fim bem delimitados, o tempo lógico dos términos e recomeços é bastante particular. E a pandemia ajudou a bagunçar ainda mais essa dimensão do tempo. Tempo de lógica e dimensão paradoxais.  Ao mesmo tempo que temos a sensação de estarmos presos em 2020, estamos ansiosos com a aposta de que a vida reviva em 2022. Se para alguns 2021 foi um prolongamento exaustivo de 2020, para outros foi um salto à distância que exigiu agilidade, força e resistência para se lançar, desajeitados e cansados, porém desejosos e esperançosos, em 2022.Esses dois últimos anos colocaram em xeque nossos valores, nossas prioridades, nossas urgências. Redefiniu os laços sociais, tencionou conflitos, bagunçou os limites entre a vida pessoal e a profissional. Expôs nossas fragilidades e intensificou ao grau máximo a lógica que rege nosso tempo. O deserto pandêmico que cada um teve que atravessar no confinamento de si mesmo fez eco e escancarou no coletivo um cansaço generalizado. Estamos todos, sem exceção, cansados em certa medida. O cansaço ganhou estatuto de significante de nosso tempo. É queixa diária daqueles que, diante de seu sofrimento e suas angústias, se lançaram no cuidado de sua saúde mental. A saúde mental, há tempos, se tornou pauta das políticas públicas. Mas nunca foi tão urgente oferecer espaços de cuidado e escuta para essa epidemia de adoecimento psíquico que se instaurou.Por que estamos tão adoecidos mentalmente? Por que vivemos tão cansados? De que sofrem tanto os sujeitos contemporâneos? Como podemos ler essa dobradiça daquilo que se apresenta como sintoma do adoecimento psíquico nos sujeitos e os sintomas sociais que estamos enfrentando? Lacan adverte que “deve renunciar à prática da psicanálise todo analista que não conseguir alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época”. É preciso ler o sujeito atravessado pelas transformações sociais e pelas marcas da cultura de seu tempo. O sofrimento psíquico do homem pós-moderno encontra novas roupagens, novos formatos e significantes diversos. Para escutar o sujeito contemporâneo e sua dor psíquica é preciso estar atento aos imperativos que regem hoje nossa cultura.
Para isso recorremos às contribuições do filósofo sul-coreano Byung-ChulHan, professor de Filosofia e Estudos Culturais na Universidade de Berlim, que trouxe para a cena contemporânea o termo sociedade do cansaço para definir as relações sociais e produtivas do século XXI. Han denuncia e analisa muito do que estamos vivendo hoje em seu livro “Sociedade do Cansaço”, publicado no Brasil em 2015, pela Editora Vozes.
Marcada pelas transformações da sociedade em rede e pelo advento maçante das tecnologias, a cultura contemporânea fez uma passagem da lógica da disciplina e do controle, para uma lógica do desempenho e da eficácia. Se antes o que ditava a norma social era o controle dos corpos e da produtividade, marcada pela negatividade do vigiar e punir que vinha do outro, agora o que está no comando, como palavra de ordem é a liberdade e a positividade. São corpos convocados a produzir mais, a performar na busca da sua melhor versão, ao alto rendimento, onde o imperativo é: “sim, você pode”. São sujeitos empreendedores de si mesmos e assim, seu próprio algoz. É preciso ser inteligente, incansável e sempre feliz. O descanso é perda de tempo. “Trabalhe enquanto eles dormem” é a máxima da ambição e da conquista. O que encontramos são sujeitos exaustos, na constante hipertensão, que contabilizam o prazer, a diversão e o descanso.
Na onda do marketing pessoal e de promover seu network, vale tudo. De dancinhas do tiktok a imagens disformes dos filtros, numa expressão forçada de sucesso e felicidade para alcançar o algoritmo. Diante do apagão das redes sociais o horror de não ter a vida medida no reconhecimento das curtidas e visualizações.
E fora do instagram, na vida sem filtros, você está bem?
O que encontramos fora dos stories são sujeitos mergulhados no paradigma da alienação, do narcisismo e da insuportabilidade de suportar a frustração. Sujeitos adoecidos e aprisionados na exaustão e hiperatividade, na busca incessante da positividade, da felicidade a qualquer custo e do sucesso pessoal. Sujeitos com sua saúde mental em frangalhos, ostentando o vazio de uma vida cheia.
O que é então essa saúde mental que tanto estamos ouvindo que o luxo hoje é ostentá-la? Como ostentar saúde mental mergulhados nessa lógica em que é preciso ser produtivo, incansável e feliz a todo instante?
Saúde mental não é estar feliz o tempo todo, não é a vida social bem-sucedida, o bem-estar pleno, a não existência de problemas. Saúde mental não é a garantia de sucesso. Saúde mental é poder encarar as adversidades de frente, suportar a frustração do fracasso, enfrentar os impasses com os recursos que se tem à mão. Saúde mental é haver-se com o real da vida, na sua não linearidade e encontrar sua maneira particular de ser feliz. Como nos ensina Freud, a análise, como forma de cuidado com a saúde mental, “nos ensina não apenas o que podemos suportar, mas também o que podemos evitar”.
Que possamos fazer uma aposta na saúde mental não pela via do luxo ou da ostentação, mas sim na via do desejo. Saúde mental é desejar.  E ser feliz, (por que não?), nos intervalos, nas pausas generosas que a vida exige. Que 2022 chegue de mansinho, de leve, com cuidado, mas firme, fazendo fissuras nessa lógica aprisionante em que estamos instalados. Que seja tempo de recomeçar. Vem 2022!!!

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