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A infância roubada

seg, 19/06/2017 - 15:10 -- Gláucia Pinheiro
Categoria: 
criança dividida entre tarefas de adulto e de criança

Como pensar a infância de nosso tempo?

Essa pergunta abre uma breve reflexão sobre o lugar da criança, da infância, do infantil e, consequentemente dos pais, nessa nossa cultura contemporânea. É urgente trazer esse tema para a ordem do dia de nossas reflexões. Nossas reflexões adultas, pois somos nós, adultos que estamos, nesse laço com as crianças, a educá-las. São tempos paradoxais e as questões em torno do infantil e da infância não ficam de fora dos atravessamentos, dos interrogantes e dos impasses desses tempos hipermodernos.

As infâncias são históricas. Comportam a marca do seu tempo, da sua época. E qual seria a marca da infância dos tempos atuais? Várias seriam as palavras para adjetivar essa infância, mas vamos eleger aqui o paradoxo. Uma infância paradoxal. Paradoxo que aqui se mostra quando nos vemos diante de uma geração de crianças cercadas dos mais diversos recursos e estímulos, porém superprotegida e despreparada diante das frustrações. Uma geração de pais, os  mais preparados teórica e tecnicamente para exercer suas funções, ensinadas e expressas nos manuais pedagógicos, porém perdidos diante do seu saber-fazer. Uma infância roubada, usurpada.  Roubaram a infância das crianças. Subverteram o infantil. Quem roubou? Sujeito indeterminado. Nesse paradoxo, a inversão de valores e funções às avessas. Crianças que se portam como pequenos adultos, sem seus recursos simbólicos, e adultos infantilizados, mergulhados na enxurrada de demandas e de certezas antecipadas a seguir a qualquer custo.

A infância é um tempo de construção. Tempo de descobertas, de ânsias. É tempo de trabalho.  Tempo de desejar coisas que não se pode ainda. Elas, as crianças, são marcadas por um desejo específico, um desejo, que como nos ensina Freud, é de grande ajuda na educação. O desejo de ser grande. Ser grande, desejar ser grande, é desejar poder fazer aquilo que nesse tempo ainda não é permitido. Ser grande é poder fazer aquilo que os adultos fazem. Desejar ser grande é saber que ainda não podem, é serem frustradas no seu querer. É por isso que a criança brinca, para realizar e simbolizar ali, na brincadeira, no ato de brincar, os desejos.

Mas ao roubar a infância das crianças, roubamos aquilo que elas têm de mais precioso para construir seu desejo e constituírem-se como sujeitos desse desejo. Roubamos sua possibilidade de brincar. Seguindo a lógica do mercado, nos deparamos hoje com crianças sem desejo, crianças voluntariosas, melancólicas na sua relação com os objetos. Objetos que estão somente no circuito do consumo e não do afeto. Estamos diante de uma geração de crianças que não desejam, justamente por não terem seus quereres frustrados. Está aí mais um paradoxo. Crianças que tudo querem e tudo têm, mas nada desejam.  Na demanda sem fim, o acúmulo de objetos, de consumo, de nada. Mais um paradoxo: diante da profusão de objetos, de brinquedos, de eletrônicos, o vazio do tédio. Não se pode não fazer nada, “inventar moda”.  Não há lugar para o ócio, para o brincar e para “fazer arte”.  O que temos para hoje?  Crianças sem infância, objetivadas, consumidas como mais um bem, terceirizadas com suas agendas exaustivas de “trabalho”. Crianças tóxicas e intoxicadas pelo excesso, espectadoras de seus brinquedos fantásticos e sem recursos para, em ato, brincar.

Entre a vida adulta e a infância há uma disparidade. Disparidade necessária para que cada um ocupe seu lugar, exerça sua função.  Vemos hoje, como marca dessa relação, uma grande ilusão. Pais iludidos com a fantasia de uma infância sem traumas, de uma educação sem frustrações, sem dor ou sofrimento. Crianças iludidas de que tudo podem e tudo merecem. Crescer dói. Crescer exige renúncia. E na inversão de lugares nos confrontamos com a tirania dos filhos e um avassalador desamparo dos pais. Uma infância às avessas, crianças normatizadas, robotizadas, silenciadas. Adultos perdidos, desamparados, desautorizados, sem direção.

É preciso se inquietar. É preciso se interrogar. Que efeitos vamos colher dessa infância? Que geração de adultos teremos lá na frente? Porque a conta parece não fechar. Mas ela chegará. E talvez, teremos um preço muito alto a se pagar. Quem há de saber?

Eu sou Gláucia Pinheiro, psicanalista
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