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A ética nossa de todo dia

sex, 22/09/2017 - 10:05 -- Gláucia Pinheiro
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desenho de homem na corda bamba entre o certo e errado

Estamos vivendo tempos sombrios. E na confusão desses tempos de crise (política, econômica e de valores) em que nos encontramos, torna-se urgente pensarmos e discutirmos sobre o conceito de ética. Aliás, não nos basta somente tecermos discursos filosóficos sobre a ética e a moral, ou conceituarmos teoricamente a palavra ética. Muito menos fazer uma prática da tagarelice queixosa sem conteúdo crítico sobre a corrupção de nossos políticos e governantes, atores desse filme de enredo sórdido e manipulador que assistimos diariamente, apáticos e atônitos. É preciso que coloquemos na ordem do dia, para nossa reflexão, os dilemas da nossa ética cotidiana.

Assistimos, paralisados, a novela política da vida real, estampada nas manchetes dos jornais, nas chamadas dos noticiários da Tv e no passeio pelos posts das timelines das redes sociais.  Assujeitados, caímos no engodo da bela indiferença. Muitas vezes nos recusamos a ler as notícias de uma mídia tendenciosa. Outras, já cansados, preferimos nada saber, abrigados no conforto da ignorância. Quando lemos, buscamos culpados, temos dificuldades na interpretação do texto, negamos nossa responsabilidade e nosso papel na cena política e repetimos apáticos e melancólicos que nada temos a ver com isso. Vislumbramos a política a partir dessa relação de poder, ancorada na dominação e na coerção. Acreditamos haver um grande abismo que nos separa, nós cidadãos comuns, deles, políticos, autorizados a exercer essa prática. Embora informados, nos mantemos alienados.

Mas a política, assim como a ética, para além do conceito, não diz respeito somente a eles. Diz respeito a nós. Sim, somos políticos. Fazemos política no nosso trabalho, em nossas casas, com nossos filhos, na escola, na faculdade. Fazemos política no nosso condomínio, na nossa vizinhança, na nossa comunidade. A política está presente no nosso dia-a-dia. E somos éticos no nosso fazer político? Ética e política se enlaçam, num fazer marcado pelo ato. Um ato político não se dá sem um posicionamento ético.

Tomemos a palavra POLÍTICA. Quando nos vemos embaraçados para dar a significação de um termo, recorremos ao dicionário. Um dos dicionários de nossa língua assim a define: “conjunto dos fenômenos e das práticas relativos ao Estado ou a uma sociedade; arte e ciência de bem governar, de cuidar dos negócios públicos; habilidade no trato das relações humanas”. Somos cidadãos da polis, estamos imersos na cultura, cravados na civilização. Logo, somos políticos, fazemos política, exercemos atos políticos. Somos constituídos a partir de nossa relação com o outro. Tecemos laços.  O que nos dá o caráter civilizatório é a presença da lei. Da lei simbólica que marca a exigência de uma renúncia, de uma restrição, de uma interdição. A civilização impõe sacrifícios, não nos permite a plena satisfação de nossos desejos sexuais e de nossas tendências agressivas. Como nos diz Freud, “a liberdade individual não é um bem cultural”, e nos deparamos com o velho ensinamento de nossos avós, “nossa quota de liberdade termina na fronteira onde começa a do outro”.

Para Freud, governar, assim como educar, é uma prática impossível. Impossível no sentido de que não é plena de satisfação, uma vez que sempre há algo que escapa, que falha, que falta, nesse ato. É uma prática fadada à incompletude. Uma prática onde não há um manual pré-estabelecido e que exige, de cada um no seu fazer, uma invenção. Porém uma prática, tal como educar, na qual nos lançamos diariamente, como sujeitos, como cidadãos, como seres humanos. Simplesmente por estarmos imersos nesse caldo cultural e fadados ao encontro com o outro. E tal como educar, governar também é uma prática na qual alguns se lançam formalmente, autorizados, legitimados por um saber.

Tomemos agora a palavra ÉTICA. Nesse mesmo dicionário encontramos a seguinte definição: “estudo dos juízos de apreciação referente à conduta humana, do ponto de vista do bem e do mal; conjunto de normas e princípios que norteiam a boa conduta do ser humano”. Sermos éticos está para além do simples julgamento de valores entre o certo e do errado. Diz de nossas escolhas, dos princípios norteadores de nossa formação. E assim como a política e a educação, a exigência de um posicionamento ético, permeia os mais simples dilemas de nossas escolhas cotidianas. Os dilemas circulam entre o que eu QUERO, o que eu POSSO e do que eu DEVO fazer. Nem sempre essas ações são coincidentes. Muitas vezes não posso, mas devo e quero. Outras vezes, não quero, mas devo e posso, outras tantas, não quero, não posso, mas devo, por uma exigência ética, me posicionar e realizar um ato. E assim, nos embaraçamos nos impasses e nos dilemas que nos exigem um posicionamento para além do fazer o bem. Mas que bem é esse que sempre se quer oferecer ao outro? Muitas vezes ouvimos a frase: “fiz isso para o seu bem.” E devemos nos interrogar, “pelo bem de quem?” O discurso psicanalítico, que se sustenta numa ética que vai além do bem e privilegia o desejo, subverte essa lógica e nos coloca diante de nossas questões subjetivas. Sermos éticos nos traz a dimensão da culpa, e como propõe Lacan, “a única coisa da qual se pode ser culpado, pelo menos na perspectiva analítica, é de ter cedido de seu desejo”. Não devemos negar a existência dos bens, mas sermos éticos exige mais que o julgamento de ações. Exige sermos fiéis aos nossos princípios e não trairmos a nós mesmos.

E a ética, a nossa ética, nesses tempos contemporâneos, está abalada. Nosso mundo insiste em ser bárbaro e estamos afundamos numa crise “civilizatória”, como tão bem pontuou Lázaro Ramos no encerramento de sua fala na FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty). Em meio a barbárie não há espaço para a ética. Onde a violência, a força e o poder coercitivo, nas suas mais variadas facetas, são formas autorizadas de governo, não há ética. Onde a lei não exerce sua função, não serve para todos e não faz barreira à barbárie, nos resta o silêncio apático de uma crise civilizatória.

O que nos resta? Retomar nossa voz. Que em meio a crise, nossa ética não seja a da conveniência. Que possamos resgatar nossos princípios, assumir nossas escolhas, nos responsabilizarmos por elas. Que não fiquemos no silêncio apático ou na tagarelice acrítica. Que possamos falar, conversar, discutir, nos fazer ouvir, mas também escutar. Que nosso fazer político cotidiano não caia no engodo da “miséria psicológica da massa”. E que tenhamos, como princípio de nossos atos, o respeito ao outro e a exigência ética de fazer frente à intolerância do narcisismo das pequenas diferenças.
 

Eu sou Gláucia Pinheiro, psicanalista
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