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Essa tal felicidade

qui, 23/06/2022 - 11:45 -- Divercidades
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O que você precisa para ser feliz? Como você define, em poucas palavras, o conceito de felicidade? Duas perguntinhas que, certamente, não são de simples resposta. O conceito de felicidade está presente na cultura e na história da civilização desde os seus primórdios. Discussões sobre a origem do ser e a felicidade, a existência e o sentido da vida, remontam à antiguidade clássica e às construções míticas. Passam pela filosofia, pela psicologia e pelos preceitos religiosos. Tal conceito passeia pela moral, pela ética e pela política e a busca da felicidade molda a forma de laço social do homem na cultura de sua época. A jornada do homem no seu percurso pela vida está marcada pela tentativa de encontrar essa tal felicidade.Porém a felicidade não é esse conceito concreto, preciso, formatado em tamanho único e que cabe em todos. Ela é algo inteiramente subjetivo. Faz parte da economia libidinal e psíquica de todo indivíduo. A tendência do nosso aparelho psíquico é sempre buscar o prazer, a satisfação. Mas na outra face da moeda da condição humana está o sofrer, o desprazer. E ao seu menor sinal, dá-se partida à saga da busca da felicidade. O mal-estar faz parte da condição do homem no seu laço social e Freud vai nos trazer uma breve definição apontando “que aquilo a que chamamos felicidade, no sentido mais estrito, vem da satisfação repentina de necessidades altamente represadas, e por sua natureza, é possível apenas como fenômeno episódico”. Como o pacto civilizatório não nos permite a satisfação irrestrita de nossas necessidades e desejos, uma vez que “a liberdade individual não é um bem cultural”, estamos fadados à frustração e a não alcançar plenamente tudo o que desejamos, experimentando bem mais a infelicidade.
Esse programa imposto pelo princípio do prazer, que rege nosso aparelho psíquico, é irrealizável. Não há, como diz Freud, um conselho que seja válido para todos. Cada um, na sua particularidade, deve descobrir a sua maneira de ser feliz e de dar contornos a esse mal-estar próprio da condição humana. Mas o século XXI chegou levantando a bandeira de um novo imperativo categórico: Seja positivo, assim serás feliz, só depende de você! Depois do consumo, do espetáculo, do cansaço, das urgências, nos vemos diante de uma sociedade do otimismo compulsivo. A positividade é a sua marca onipresente e seu objetivo é a busca de bem-estar a qualquer preço como promessa de saúde mental. Ser positivo, pensar positivo, agir positivamente tornou-se a condição e a garantia da felicidade.
A raiz desse discurso da positividade está na Psicologia Positiva, corrente teórica criada no fim da década de 1990, a partir de um manifesto do psicólogo Martin Seligman, que propõe uma nova ciência focada nas emoções positivas e na autodeterminação como forma de se alcançar a felicidade. Assim, a Psicologia Positiva é definida como a ciência que investiga o bem-estar e não o adoecimento psíquico. Esse discurso não ficou restrito ao meio acadêmico. Como a positividade está na base de todo discurso motivacional, rapidamente ela se infiltrou por todos os campos da cultura. Do auto cuidado à alimentação, da saúde física à saúde mental, da educação ao sucesso profissional, a palavra de ordem é: se você quiser, você pode. Nessa “Happycracia” a felicidade virou produto de um mercado bastante lucrativo. Coaching, livros de autoajuda, mindfulness, psicoterapias positivas, que oferecem o mapa da mina do sucesso, da performance, da disciplina e da felicidade nessa indústria do bem-estar.
Mas esse excesso de positividade tem sua face perversa. Ele é tóxico e joga para escanteio o mal-estar, o sofrimento e a dor do sujeito. Nessa forçagem da positividade, muitas vezes caímos no engodo de comprar desejos e frustrações que não são nossos. Diante dessa tirania positiva, nos vemos paradoxalmente, adoecidos de sermos felizes. Alienados no consumo de diversas pílulas de felicidade, usurpados de nossas tristezas banais, violentados de uma visão crítica das mazelas do mundo, somos silenciados de nossas angústias, pois o sofrer tornou-se algo vergonhoso, que precisa ser escondido. De mãos dadas com essa positividade tóxica está o negacionismo da realidade, do mal-estar que permeia a cultura e da própria condição humana.O discurso da positividade vendeu a ilusão de um modelo ideal de felicidade e de uma vida em constante festa. Nossa cultura comprou, propagou esse discurso e estamos hoje diante de sujeitos entorpecidos e anestesiados no seu sofrer. Buscar a felicidade é um direito legítimo. Mas poder dar lugar à tristeza é também um direito fundamental. E como cantou o Poetinha, é sim, bem “melhor ser alegre que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe... mas pra fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza, senão não se faz um samba, não!” Que cada um possa encontrar, à sua maneira, um modo próprio de ser feliz, não sem as dores do mundo e do ser.
Demita o coach e procure um analista!

Gláucia Pinheiro

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