De uma mesa improvisada em sua residência no bairro Imbetiba, em 1973, com 25 anos, Vivian César Fernandes colocou Macaé no mapa da maior produção de estampas do país. Ainda na infância, sua mãe lhe apresentou o universo das cores, e o que parecia apenas uma brincadeira infantil acabaria se transformando em sua carreira artística, que atravessou a moda e a indústria têxtil brasileira.

A arte que ensina
Logo que se mudou para Macaé, Vivian deu aulas de artes na educação infantil no Colégio Castelo, experiência que ampliou sua relação com a arte como ferramenta de aprendizado. Também desenvolveu um projeto cultural no Centro, aberto ao público, no qual crianças eram convidadas a experimentar a arte e a cultura popular. “Ali, as cores voltavam para despertar a criatividade. Até o vendedor de picolé que passava pelo local se voltou às tintas na atividade que realizava na rua”, conta Vivian.

Vivian empreendedora
Formada em História e poliglota, ela começou de forma caseira a criar estampas artesanalmente — sem formação técnica —, movida pelo olhar sensível para as cores e transformação delas no tecido. “Minha maior motivação e inspiração vieram da minha mãe, que me deu tinta e panos para eu pintar e dar de presente para a família, quando eu tinha 3 anos”, relembra.
O talento e a determinação rapidamente abriram caminhos. Em 1972, começou a pintar cangas de praia para a Malharia Monviso com a técnica Batick, que rapidamente conquistou o gosto do público feminino da cidade.

No início da década de 1980, com o apoio do ex-marido Wesley, Vívian começou a vender suas estampas para empresas do Rio de Janeiro e de São Paulo, construindo uma rede de clientes que crescia a cada nova coleção de tecidos. Assim, consolidou a Artesania Estamparia de Macaé — um amplo galpão, instalado no bairro Miramar, que chegou a ter 150 funcionários trabalhando dia e noite — onde eram produzidas estampas para grandes confecções do país, como Company, Maria Bonita, entre outras. Mais do que administrar a empresa, Vivian participava ativamente da criação, desenhando padronagens e acompanhando cada etapa do processo produtivo. Infelizmente, as mudanças políticas e econômicas no país forçaram o encerramento das atividades da estamparia em 2010.

Haiti: quando a arte encontra a reconstrução
Seu talento também a levou para uma experiência profissional e pessoal que marcou sua vida. Convidada pela ONG Viva Rio, ela participou de um projeto no Haiti após o terremoto, em 2010 — uma tragédia que deixou cerca de 300 mil mortos e milhões de pessoas sem casa. O país ficou em ruínas, mas foi ali que a arte encontrou outro sentido: a estamparia se tornou instrumento de reconstrução. A proposta do projeto era capacitar moradores na técnica de estamparia em silkscreen — impressão manual usada para transferir desenhos —, criando oportunidades de trabalho e geração de renda. “Adaptamos os materiais ao que eles já conheciam e utilizavam. A ideia era transformar a memória cultural deles em arte”, explica. Pequenos gestos também se tornaram aprendizado.

O tempo da artista
Hoje, aos 78 anos, dedica-se à criação de peças exclusivas e ao apoio a projetos sociais. Recentemente, desenvolveu lenços destinados à Unamama, entidade que oferece acolhimento e suporte a mulheres em tratamento contra o câncer.
Vivian também dedica seu tempo à família, com os filhos Alexandre, Cláudio e Fabiano, principalmente aos netos, e aos carinhos na Mel, sua cachorrinha. Entre uma criação e outra, mantém o costume de nadar no mar com a Academia dos Anormais.
Progressista e sempre à frente do seu tempo, Vívian segue em movimento: atualmente está em viagem pelo interior da França, explorando novas paisagens, referências culturais e cores — muitas vezes na própria companhia —, experiência que continua a alimentar seu olhar artístico e sua liberdade criativa.


