Há vidas que se enraízam numa cidade como se fossem árvores plantadas à beira-mar. Elas crescem, dão sombra e oferecem frutos para quem passa. Sylvio Lopes é uma dessas árvores. O então jovem sonhador chegou a Macaé atraído por encontros, oportunidades e por Dona Carmem, que viria a ser sua parceira por 61 anos. Em julho de 2025, Sylvio Lopes completou 94 anos e, ainda hoje, o veterano político toma café à tarde com os filhos e recebe cumprimentos na rua, respondendo cada abraço como um homem que aprendeu a medir o tempo pela generosidade.

Sua trajetória mistura trabalho, improviso e um raro sentido de dever. Começou como topógrafo no Departamento de Estradas e Rodagens; foi empresário no ramo funerário; viveu as agruras de uma infância marcada pela perda e pelo esforço para vencer; e, contra a sua própria resistência inicial à política, acabou na vanguarda da administração municipal.
A maçonaria foi porta de entrada, e a política — recebida quase por acaso — transformou-se em ofício. Se elegeu prefeito de Macaé pela primeira vez em 1988 (mandato 1989–1992) e voltaria para liderar o município em outros dois períodos (1997–2000 e 2001–2004). Nas frestas desse percurso, ocupou cadeiras no Congresso como deputado federal em momentos distintos (1995–1996; 2007–2010), sempre com o olhar voltado para a articulação e para a busca de recursos. No primeiro mandato, renunciou para reassumir a prefeitura, tamanha era sua necessidade de trabalhar pela cidade que o acolheu.

Na então “Princesinha do Atlântico” o que ficou, sobretudo, foi o legado do seu governo. Esforço e planejamento para uma Macaé do futuro como: linhas expressas Verde e Azul, principal via de acesso para o trânsito pesado; o Centro de Convenções Jornalista Roberto Marinho; o Sistema Integrado de Transporte; o complexo hospitalar público e o que se popularizou como “Memorial da Igualdade”, entre outros. Obras que, para Sylvio Lopes, não eram monumentos ao nome, mas respostas a uma urgente necessidade cidadã. “A gratidão foi o que me fez ser o homem que sou”, diz numa conversa caseira, ao lado dos filhos Aldo, Glauco e Sylvinho. “É reconhecer quem ajuda, dividir méritos, e devolver à cidade a confiança que recebi”, complementa.

Entre as histórias que ele conta em voz baixa, há passagens simples como: plantar mangueiras para a sombra dos que virão depois, defender a criação de alternativas econômicas para além do petróleo, pensar a saúde como eixo para atrair e manter serviços e gente. Sylvio também recordou episódios de batalha cotidiana, como articulações com políticos, limitações orçamentárias e a necessidade de transformar ideias em projetos executáveis. Ele também refletiu sobre o futuro: o fim do petróleo, a necessidade de planejamento, as parcerias para a educação. Também refletiu os erros, que não nega; e pede, com a calma de quem acumulou décadas de aprendizado, coragem cívica aos eleitores, especialmente para que não troquem o voto por migalhas.

Até hoje, Seu Sylvio — para a grande maioria — não para de fazer política. Ao contrário, reformulou o modo que sempre adotou: com conversa, escuta e com palavras que repete como em prece — gratidão. “Ser filho de Sylvio Lopes é um orgulho imenso! Orgulho do pai, do marido, do irmão, do amigo, do empresário, e do político. Nos ensinou, e ainda ensina a cada dia, a sermos fraternos, solidários, a nos colocarmos no lugar do outro, enfim, a gostar de gente. Vai nos deixar, dentre tantas coisas importantes, um grande legado de muito amor a Macaé e a nossa gente, e de muita responsabilidade com a coisa pública e com as futuras gerações”, é o que relata os filhos Sylvinho, Glauco e Aldo Lopes.
